Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

Armadilha Aerbica

Jos Luiz Barroso Jnior

08/12/2014

Paradoxalmente, a obesidade tem aumentado ao mesmo tempo em que aumenta a adeso aos programas de atividade fsica. E o fato das pessoas no emagrecerem mesmo praticando exerccios, traz alguns questionamentos a respeito das direes dos programas atuais de emagrecimento e suas bases. Apesar da m adeso por longos perodos ser um problema, ela no parece ser o nico fator de insucesso dos planejamentos que objetivam a reduo de peso em obesos e sobrepesados (Finley et. al. 2006). Algumas outras armadilhas parecem estar escondidas nesses programas, e necessria uma viso um pouco mais critica e menos submissa para observa-las.

Neste sentido, Gentil j lanara um olhar critico e corajoso sobre o assunto em 2010, com seu livro, e Winett et. al fez o mesmo em 2014 com um artigo de opinio/reviso. Os autores, em linhas gerais, chamaram a ateno para as falhas nos programas de emagrecimento que se pautam em exerccios de baixa intensidade e restrio calrica severa, e propem uma nova abordagem, com exerccios menos volumosos e de maior intensidade, com incluso de musculao e dietas sem restries excessivas.

Mas por que os programas de exerccios para emagrecimento escondem tantas armadilhas e como elas poderiam atrapalhar no processo de emagrecimento?

Para responder a essa pergunta preciso primeiramente entender que o sucesso de um programa de emagrecimento est pautado na melhora da composio corporal e manuteno dessa melhora, para isso necessrio que haja interferncias positivas em 3 elementos importantes: metobolismo de repouso, efeito termognico dos alimentos e gasto energtico nas atividades dirias (Paoli 2014). Levando em conta esses trs elementos podemos ento, montar um raciocnio e entender algumas das armadilhas contidas nos programas de emagrecimento.

Nesse sentido, um artigo de reviso publicado de 2014 por pesquisadores americanos (Swift 2014) tratou do assunto perda de peso, comentando as mais atuais publicaes sobre o assunto e chegou a algumas concluses que merecem destaque:

1) Aerbio sozinho causa modesto emagrecimento, de 2 kg no mximo (estamos falando de perda de peso e no gordura) para perodos muito grandes, alguns com mais de 1 ano de interveno. E ainda assim isso s com ocorre em poucos trabalhos e com altos volumes.
2) Para que se potencialize a perda de peso deve-se introduzir controle alimentar de caracterstica restritiva e, nesses casos, aerbio + dieta proporciona as mesmas perdas que apenas dieta.
3) Adotar uma vida ativa acompanhada de dieta leva s mesmas perdas e previne melhor o reganho de maneira mais eficiente que realizar aerbio de baixa intensidade e alto volume combinado com dieta restritiva,, o que ficou bem claro no trabalho de Ross et.al. de 1999.

Com isso posto e voltando aos elementos ligados ao sucesso no processo de emagrecimento: aumento do metabolismo de repouso, efeito termognico dos alimentos e gasto energtico das atividades dirias, podemos fazer uma srie de reflexes.

Para que exerccios aerbios de baixa intensidade gerem alguma perda de peso necessrio que sejam realizados em altos volumes e aliados a dietas restritivas. No entanto, a dieta restritiva, por si s, causaria a mesma perda. (Swift 2014) O problema seria que essa combinao dieta restritiva + altos volumes de treino so ligados desacelerao do metabolismo de repouso e do gasto energtico nas atividades dirias e induziriam o reganho de peso com uma maior configurao na regio abdominal. Isso foi bem verificado por Johannsen et al. (2012) ao acompanhar indivduos que participaram de um famoso programa da TV estadunidense em que o vencedor seria quem perdesse mais peso. Como o resultado das estratgias adotadas, de altos volumes de exerccio e dietas de extrema restrio, houve perda de peso, mas os autores verificaram a diminuio do metabolismo de repouso e do gasto de energia em atividade dirias, dois importantes elementos para o sucesso de perda de peso sustentvel, o que apontaria para um futuro reganho a longo prazo. J Banasik et al. (2013) investigaram os efeitos de uma dieta restritiva (800kcal/d) com base em shakes, iogurtes, sopas e barrinhas. A restrio teve a durao de 28 dias com uma perda de peso aproximada de 6 kg e com melhora de alguns marcadores importantes. No entanto, 25% da amostra no conseguiu aderir a dieta e, dentre os que aderiram, a reavaliao aps 6 meses constatou um reganho de peso com uma configurao de maior quantidade de gordura visceral que a verificada no inicio da interveno.

Neste ponto conseguimos enxergar de forma mais clara a primeira armadilha dos exerccios de baixa intensidade e longa durao: este tipo de abordagem deveria ser obrigatoriamente acompanhado de dietas restritivas. Esse arranjo interferiria de forma direta e indireta nos trs elementos citados para uma perda e manuteno do peso sustentveis como vimos nos trabalhos citados no texto. Sofreriam interferncia e teramos a seguinte configurao:

- Efeito termognico dos alimentos diminudos pela dieta restritiva obrigatria nesse tipo de programa;
- Metabolismo de repouso afetado pelos altos volumes de treino e perda do peso corporal sem qualquer preocupao com a manuteno da massa magra;
- Gasto nas atividades dirias diminudos tambm pelo alto volume de exerccios somado dieta restritiva.

Gentil em seu livro detalha de forma bem mais especfica e rica os mecanismos e os problemas dos exerccios de alto volume e baixa intensidade. Coloca em xeque os programas que se baseiam em altos volumes e dietas restritivas e oferece solues a essas armadilhas e algumas outras encontradas em tais abordagens. O fato que nos dias de hoje a abordagem mais tradicional, que no funcionou durante dcadas, e vem agonizando, precisa ser substituda por algo mais eficiente e sustentvel. Novos paradigmas precisam ser criados, uma transformao precisa ocorrer.

Referncias:


Finley, C. E., et al. "Retention rates and weight loss in a commercial weight loss program." International journal of obesity 31.2 (2006): 292-298.
Paoli, Antonio, Tatiana Moro, and Antonino Bianco. "Lift weights to fight overweight." Clinical physiology and functional imaging (2014).
Winett, Richard A., et al. "Developing a new treatment paradigm for disease prevention and healthy aging." Translational behavioral medicine 4.1 (2014): 117-123.
Swift, Damon L., et al. "The role of exercise and physical activity in weight loss and maintenance." Progress in cardiovascular diseases 56.4 (2014): 441-447.
Anderson, Ross E., et al. "Effects of lifestyle activity vs structured aerobic exercise in obese women." JAMA 281.4 (1999): 335-40.
Johannsen, Darcy L., et al. "Metabolic slowing with massive weight loss despite preservation of fat-free mass." The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism 97.7 (2012): 2489-2496.
Banasik, Jacquelyn L., et al. "Low‐calorie diet induced weight loss may alter regulatory hormones and contribute to rebound visceral adiposity in obese persons with a family history of type‐2 diabetes." Journal of the American Association of Nurse Practitioners 25.8 (2013): 440-448.