Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

A DITADURA DO EXERCCIO CARDIOVASCULAR DE LONGA DURAO CHEGOU AO FIM

Jos Luis Barroso Jnior

06/04/2015

VO2 max a capacidade mxima do corpo de um indivduo em transportar e metabolizar oxignio duranteo exerccio fsico a varivel fisiolgica que mais reflete a capacidade aerbica de um indivduo. A sigla derivada de "Volume de Oxignio (O2) mximo". uma grandeza expressa em litros de oxignio por minuto (l/m) de forma absoluta, e em mililitros de oxignio por quilograma por minuto (ml/kg/min) de forma relativa ao peso do indivduo. Essa medida correlacionada de forma positiva com menor risco de mortalidade, ou seja, quanto maior seu VO2 mximo mais tempo se vive (ACSM 2011). Neste sentido, Kodama e colaboradores em meta-analise de 2009 definiram como 7,9 METS (VO2 max ~ 27,65 mlo2/kg/min) o ponto de corte para um nvel interessante de preveno da mortalidade por todas as causas. Kodama ainda estabeleceu que o aumento de 1 MET (3,5 mlO2/kg/min) era o suficiente para estabelecer o mesmo nvel de preveno de 7 cm a menos na circunferncia abdominal e de 5 mmHg de queda na Presso arterial sistlica. Os autores ainda comentam que de acordo com seus achados o nvel de capacidade aerbica mxima seria suficiente para a preveno, sem levar em conta o tipo ou a quantidade de atividade.

Assim como o VO2, uma das capacidades primeiras capacidades fsicas a serem correlacionadas com mortalidade, mais recentemente a fora tambm vem sendo objeto de correlaes neste sentido.A Coorte de Ortega e colaboradores, com adolescentes suecos, acompanhou mais de um milho de indivduos e correlacionou bons nveis de fora com menor mortalidade por todas as causas, morte por doenas cardiovasculares quando corrigido por fatores de risco, e at mesmo suicido, evento de incidncia preocupante naquele pas. Nos EUA, uma coorte realizada em um programa denominado The Third National Health and Nutrition Examination Srvey (NHANES III), acompanhou 3659 idosos acima de 55 anos e verificou que em idosos norte-americanos a massa muscular tinha correlao negativa com morte por todas as causas, chegando a 30% de diferena no risco de morte e 34% na prevalncia de morte no grupo de indivduos com menor massa muscular.

Duas questes podem ser levantadas nesse sentido. A primeira delas ento : seria possvel prevenir mortalidade com pouco tempo de atividade, fugindo daquela tradicional indicao de, no mnimo, 150 minutos semanais? Se levarmos em conta a meta-anlise de Kodama e colaboradores, sim!! Desde que o treino, IDEPENDENTE do tempo que dure na sesso ou na soma de tempo por semana, aumente sua capacidade aerbica mxima. Pra essa afirmao no se faz necessria uma argumentao mais complexa frente aos trabalhos com HIIT, principalmente os do grupo do canadense Gibala, que demonstram superioridade clara frente aos protocolos mais longos de condicionamento cardiorrespiratrio. Para ilustrar isso, recente estudo do grupo usou um protocolo de apenas 30 minutos por semana (10 min/ dia) encontrando um aumento do Vo2 Mximo significativo. (Gillen et.al 2014). A segunda indagao : ser que o tipo de atividade influenciaria de alguma forma na diminuio do risco de mortalidade? E a resposta no!! Desde que, novamente, essa atividade, idependente de qual seja, aumente sua capacidade aerbica mxima.

A partir daqui sucedem-se outras duas indagaes que soam como paradigma.

Levando em conta as Coortes j citados no texto: Seria possvel uma atividade aumentar minha capacidade aerbia, massa magra e fora prevenindo nos trs sentidos a mortalidade? Seria o treinamento de fora essa atividade e, suficiente e capaz de diminuir o risco de mortalidade?

O aumento de fora e massa muscular so adaptaes clssicas ao treinamento de fora (ACSM 2009), portanto, essas duas adaptaes j estariam facilmente entre as prevenindo indivduos que o praticam. Mas e a capacidade aerbia? Para os com o pensamento mais engessado, a resposta certamente seria no, o treinamento de fora no seria capaz de aumentar o componente aerbio, portanto, sozinho, no seria capaz de prevenir mortalidade nos trs sentidos citados, mas, para que essa afirmativa fosse verdadeira seria necessrio ignorar a srie de estudos que relacionam treino de fora e melhora do componente aerbio.

Com o devido cuidado de identificar protocolos de treino de fora interessantes e de intensidade bem estabelecida, fenmeno pouco comum, como salienta Paoli em uma carta ao Am J Physiol Endocrinol Metab em 2011 e Steele em reviso de 2012, possvel encontrar at mesmo adaptaes consideradas tpicas do treinamento cardiovascular. Avelhus e colaboradores submeteram indivduos a um protocolo de treinamento de fora duas vezes por semana durante oito semanas. As repeties eram realizadas sempre at a falha concntrica (detalhe importantssimo) e os indivduos foram instrudos a no fazer treinamento cardiovascular durante o perodo. Como resultado os pesquisadores observaram um aumento no VO2 de pico dos indivduos dado intimamente ligado capacidade mxima aerbica. (49.7 5.5 para 56.3 5.0) alm de algumas enzimas ligadas a capacidade aerbia de produo de energia.(Avelhus et.al. 2014) Em outro estudo, pesquisadores noruegueses submeteram indivduos obesos a 12 semanas de treino, um dos grupos randomizados realizava musculao pesada, o treino consistia em quatro sries de 5 rep com ~90% de 1RM no Leg press e mais alguns exerccios adicionais. Ao final, o grupo musculao, teve uma melhora de 10% no VO2mx(Schjerve et. al. 2008). Lovell e colaboradores selecionaram idosos entre 80 e 90 anos saudveis e submeteram-nos a treinamento de fora durante 16 semanas. As sesses de treino, duravam 25 min, 3 vezes por semana e consistiam em sries no Hack Machine. Cada participante era treinado individualmente pelos autores. Alm do acompanhamento personalizado, o percentual de carga variou entre 70-90% de 1 RM, sempre reajustados quando necessrio, o que pode remeter a um ajuste da carga necessrio entre as sries realizadas para manuteno das repeties estabelecidas e uma possvel configurao de treino com um bom ajuste de intensidade. Como concluso, os autores observaram melhora na reposta da presso arterial em testes submximos de esforo o que j um preditor de mortalidade por doena cardiovascular (Filipovsky et. al 1992). Somado a isso, o artigo tambm mostrou aumento do VO2 max. ao final de 16 semanas de treinamento (Lovell et.al. 2009).. Em outro trabalho do final da dcada de 90, pesquisadores dividiram idosos em dois grupos. Um dos grupos treinava fora por nove semanas, seguidas por outras 9 semanas de treinamento aerbio, o outro grupo treinava dezoito semanas de treinamento aerbio apenas. Foram feitas medidas em ambos os grupos na semana nove (aps treinamento de fora para o primeiro grupo) e na semana dezoito. As caractersticas do protocolo de treino de fora apontam no sentido de que a intensidade foi bem prescrita e monitorada. Os idosos realizavam trs sries em quatro exerccios com intensidade sempre regulada (6-12 repeties mximas). Como resposta ao treino de fora e treino aerbio, os autores encontraram melhoras similares para do VO2 de pico e capilaridade da fibra, fatores ligados capacidade aerbia (Happle et. al. 1997). importante que um programa de exerccio tenha como objetivo primrio a preveno de doenas cardiovasculares e, por consequncia, reduo da mortalidade, alm de gerar benefcios do ponto de vista funcional. Portanto, se um indivduo deixa de ir academia por no gostar das horas em cima de um ergmetro, d-lhe as boas noticias, no necessrio passar horas se exercitando e que pode optar apenas pelo treinamento de fora inicialmente se preferir. A ditadura do exerccio cardiovascular de longa durao chegou ao fim!!!

Referncias:

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Filipovsk, J., Ducimetire, P., & Safar, M. E. (1992). Prognostic significance of exercise blood pressure and heart rate in middle-aged men.Hypertension, 20(3), 333-339.
Gillen JB, Percival ME, Skelly LE, Martin BJ, Tan RB, et al. (2014) Three Minutes of All-Out Intermittent Exercise per Week Increases Skeletal Muscle Oxidative Capacity and Improves Cardiometabolic Health. PLoS ONE 9(11): e111489. doi:10.1371/journal.pone.0111489
Hepple, R. T., Mackinnon, S. L. M., Goodman, J. M., Thomas, S. G., & Plyley, M. J. (1997). Resistance and aerobic training in older men: effects onV˙ o 2 peak and the capillary supply to skeletal muscle. Journal of Applied Physiology, 82(4), 1305-1310.
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