Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

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Eritropoetina

Julio Papeschi

02/03/2010

Questões éticas envolvendo o esporte de alto rendimento e o doping parecem se confundir com a própria história do esporte competitivo. Seriam possíveis as quebras de recordes sem a utilização de substâncias proibidas que ajudem a potencializar a performance esportiva? E mais, será que treinadores e atletas estariam dispostos a abrir mão de tais recursos?(1).A busca incansável por melhores resultados leva atletas a utilizarem estratégias perigosas e ilícitas, que acabam por colocar em risco sua integridade física(2). O esporte brasileiro ficou surpreso no segundo semestre de 2009, véspera do mundial de atletismo, quando atletas que compunham a seleção brasileira, foram flagrados no anti dopping com a utilização de substância eritropoetina (Epo)(3). Procuraremos entender adiante os motivos pelos quais atletas buscam a utilização deste hormônio para melhoria de seus resultados. 

Em qualquer livro clássico de fisiologia encontramos a figura marcante das “catracas fisiológicas” que representam o transporte do oxigênio do meio ambiente até o músculo(4). Atletas de endurance dependem da eficiência deste sistema para que a atividade se prolongue e se mantenha na intensidade adequada(5). Quem realiza o transporte oxigênio para as células no sistema circulatório são os eritrócitos (células vermelhas), através da afinidade que o oxigênio tem com a hemoglobina que é o principal constituinte de tais células(6). Desta forma, se aumentarmos a disponibilidade de oxigênio para o sistema circulatório e a quantidade de eritrócitos, conseqüentemente aumentamos o transporte de oxigênio para o músculo, e se este estiver preparado para recebê-lo, melhoramos a performance, ou seja, o conceito clássico do Vo2 máx(4).O doping pela Epo é utilizado principalmente por atletas de modalidades esportivas, onde a exigência do elevado aporte de oxigênio tecidual se faz necessário(5).Em nosso organismo a medula óssea de alguns ossos é responsável pela produção de sangue e esta produção é regulada pela Epo(6,25). 

A Epo é um hormônio endógeno de natureza glicoprotéica, sintetizado principalmente em células epiteliais que revestem os capilares peritubulares renais. Cerca de 90 % da Epo produzida no organismo é sintetizada pelos rins e os 10% restantes pelo fígado, cérebro, útero e pulmões(2,14). Este hormônio é responsável pela produção de hematócritos, pela diferenciação das células eritrocitárias e o pelo início da síntese de hemoglobina(2,14). Estima-se que a meia-vida da eritropoetina, após o lançamento no sangue, seja de seis a oito horas e que seus níveis plasmáticos(25). Ao nascermos todos os nossos ossos contém medula capaz de produzir sangue. Com o passar dos anos, a maior parte da medula vai perdendo sua função, sendo substituída por tecido gorduroso. Na fase adulta somente alguns ossos passam a desempenhar tal função(25). A Hipóxia nos tecidos é o estímulo fisiológico fundamental que resultará em um aumento acelerado na produção de Epo renal através de um aumento exponencial do número de células produtoras de Epo(14). Quando esta baixa oxigenação tecidual mostra-se presente, a Epo é sintetizada e carreada pela corrente sanguínea até a medula óssea, agindo em células progenitoras eritrocitárias e ocasionando um aumento de eritrócitos na circulação. Em relação a este aumento eritróide, observa-se que ocorre em cerca de um a dois dias após o pico plasmático da Epo(9). 

Relatos da década de 70 mostram o artifício do uso do doping sanguíneo, especificamente em atletas de provas de endurance, usando de transfusões de sangue alguns dias antes de competições que previam o aumento do número de hematocritos e desta forma um aumento no transporte de oxigênio para os músculos(2,7). Tais procedimentos foram erradicados pelo COI em 1976, devido a questões éticas, mas principalmente pelos riscos altos a saúde dos atletas(2,26). A dopagem por transfusão sanguínea começou a ser substituída em função da necessidade da presença de médicos e dos riscos relacionados a possíveis incompatibilidades sanguíneas e infecções que tais procedimentos poderiam causar(26).

O avanço das técnicas da ciência moderna levaram o homem a produzir uma forma sintética da Epo humana (rHuEpo) para solucionar casos de doenças como as anemias causadas pelas doenças renais crônicas, e de pacientes que precisavam realizar constantemente transfusões de sangue, como forma a auxiliar no tratamento de tais patologias(8,25). No entanto, mais cedo ou mais tarde o uso de tal terapia se tornaria uma realidade para atletas. Suspeitas de casos de utilização da rHuEpo voltados para o rendimento esportivo aparecem descritos desde a década de 80. Atletas que competiam em provas ciclismo morreram misteriosamente por falha no sistema cardiovascular e que posteriormente a atribuição de tal fato se deveu a utilização da rHuEpo(10,26).

A agência mundial anti dopping (WADA) incluiu a Epo em sua lista de substâncias proibidas a partir de 1987, devido justamente a esta capacidade de aumentar a quantidade de glóbulos vermelhos e aumentar o transporte e conseqüente aporte de oxigênio para o músculo, mas sobretudo pelos riscos que ela poderia causar(11). O que pareceu estranho nos casos dos atletas brasileiros flagrados, foi a utilização desta substância por atletas de modalidades do atletismo que dependem de sistemas energéticos de alta energia, situação esta em que a eritropoetina teoricamente não teria uma contribuição marcante como provas de 100 e 200 metros rasos.

Eritropoietina humana recombinante
A evolução das técnicas de engenharia genética permitiram a produção de uma forma análoga a Epo endógena, a Eritropoietina humana recombinante (rHuEpo), que passou a ser comercializada em 1989 como forma de auxiliar nos tratamentos de quadros de anemias severas devido a complicações renais(12). Seu uso também é indicado para pacientes que se submetem a sessões de quimioterapia, no tratamento de doenças imunes como a AIDS, casos de transfusões de sangue devido a ocorrências de intervenções cirúrgicas, entre outras, trazendo uma melhor qualidade no atendimento dos pacientes(13,23). Efeitos colaterais descritos na literatura envolvidos na terapia da base da rHuEpo são de náuseas, ansiedade, dores de cabeça, febre e letargia. Ainda outros efeitos do uso da rHuEpo podem aparecer como hipertensão arterial, tromboembolias, aumento da viscosidade sanguínea e diminuição do débito cardíaco, devido ao aumento dos hematócritos, diminuição dos níveis séricos de potássio, infarto no miocárdio, morte súbita, entre outras(14,15,16,17,18,25). Todos estes efeitos se tornam mais evidentes quando as dosagens de rHuEpo elevam os níveis dos hematócritos para valores entre 50 e 55%(20).

Uso no esporte e formas de detecção
Ekblom verificou, em 2007, aumento no Vo2 máx. e no tempo até a exaustão em corridas em esteiras após injeções subcutâneas de rHuEpo por várias semanas(27). Aundran também verificou um aumento do Vo2 máx, nos limiares ventilatórios e diminuição da freqüência cardíaca depois de 25 dias de administração de rHuEpo(28). A atividade física parece não promover efeitos positivos sobre o aumento da produção da Epo endógena(24).

A baixa concentração da Epo nos fluidos biológicos é o maior empecilho para se conseguir detectar sua presença e flagrar o doping em atletas(19).Milhões de dólares foram gastos na última década na tentativa de a dopagem com as formas análogas a Epo humana. Contagem de hematócritos, reticulocitose, macrocitose, receptores de transferrina solúvel, tem seus valores mascarados, pois esbarram em limitações na coleta do sangue em função do estado de hidratação do atleta, hora da coleta e até postura corpórea do atleta(21,28).

Pesquisadores da Universidade de Quebec analisaram a urina de atletas após a participação e encontraram elevadas concentrações de produtos de degradação da fibrina e do fibrinogênio, proteínas sanguíneas participantes da cascata de coagulação. O cruzamento de informações como, a que a prática da atividade esportiva não levaria a este quadro e que a Epo estaria envolvida em tal processo levaram os pesquisadores a encontrar uma forma interessante de detecção do doping pela Epo(22). Na olimpíada de Sidney em 2000 o COI apertou o cerco aos atletas obrigando-os a fazer os testes anti doping através da urina e do sangue, eliminando do evento os atletas que se recusassem a realizar os testes por questões éticas ou religiosas(26). Testes vêm sendo aprimorados de forma a conseguir buscar precursores dos eritrócitos ou o produto final de seu caminho pelo organismo.

Dopagem genética e eritropoietina
De acordo com a Agência Mundial Anti-Doping (WADA), doping genético ou celular é definido como 'o uso não terapêutico de genes, elementos genéticos e / ou células que têm a capacidade de melhorar o desempenho atlético', e, desde 2003, esta foi incluída na lista da WADA de substâncias e métodos proibidos(11). O uso da dopagem genética já parece ser uma realidade em tratamentos experimentais com pacientes com quadros renais crônicos, melhorando inclusive a tolerância ao esforço físico(12). Tratamento com a introdução de genes da eritropoietina ainda estão em fase experimental e apresentam um grau de confiabilidade ainda baixo. Valores de até 75% de hematócritos têm sido encontrados em ensaios em macacos, valores estes incompatíveis para um ser humano(29).

Leiden e colaboradores conseguiram com sucesso transferir uma cópia adicional do gene da eritropoetina em macacos e ratos, levando a crença que já podemos realizar este tipo de dopagem.Embora os experimentos tenham sido realizados em poucos animais, eles mostraram altos níveis de expressão de eritropoetina e um aumento significativo do hematócrito (de 49% para 81% em camundongos e de 40% para 70% em babuínos) que durou mais de 12 semanas. Entretanto, é muito provável que a super-expressão de eritropoetina tenha efeitos prejudiciais importantes em pessoas saudáveis, haja vista que foi observada uma elevação muito acentuada do hematócrito de macacos (de 40% a aproximadamente 80%). Isso obviamente pode representar um risco sério de comprometimento da função cardiovascular, incluindo dificuldade de manutenção do débito cardíaco e da perfusão tecidual, devido ao substancial aumento da viscosidade sanguínea. No entanto os mesmos pesquisadores alertaram para o possível risco de trombose com hematócrito aumentado, exigindo flebotomia profilática. Além disso, foi relatada anemia grave em alguns animais por causa de uma resposta auto-imune à transferência do gene extra(30).

Considerações finais
O custo elevado e os altos riscos a saúde devem levar os atletas a repensarem suas estratégias nas buscas por melhores resultados com a dopagem com Epo.

 

Referências


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