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Terapias hormonais

Paulo Gentil

04/02/2014

Um problema vem nos assombrando há tempos: há médicos prescrevendo hormônios, especialmente testosterona, em dosagens altas com finalidades estéticas. E isso se tornou um mercado altamente lucrativo, nos EUA, por exemplo, as terapias a base de testosterona cresceram mais de 5 vezes entre 2005 e 2011. Sendo que em 2011 esse já era um mercado de 1,6 bilhões de dólares!!

O que está acontecendo é que alguns oportunistas se renderam ao que o Mundo já sabe há décadas: o uso de determinados hormônios ajuda a melhorar o desempenho físico e a composição corporal! Para mascarar o fato de estarem simplesmente dando bomba aos seus pacientes, esses médicos aplicam uma nova roupagem às suas práticas, e com isso conseguem vender um produto mais caro ao mesmo tempo em que parecem menos imorais. Três roupagens bem conhecidas são os: implantes subcutâneos (chips), modulação hormonal e a reposição hormonal.

Reposição hormonal

Talvez o maior disparate de todos seja falar em reposição hormonal! Existem valores de referência para as taxas hormonais e uma reposição só deve existir se os valores estiverem abaixo da normalidade. Nesse sentido, é totalmente incoerente falar em reposição de testosterona para mulheres e homens saudáveis! Por exemplo, a produção de testosterona de uma mulher é cerca de 0,2 a 0,4 mg/dia, portanto, mesmo um comprimido de 5mg de oxandrolona já resultará em uma carga de hormônios de mais de 10 vezes a normalmente encontrado nas mulheres e já seria suficiente para induzir masculinização (Menke et al., 2010; Freriks et al., 2013) . 

Aliás, mesmo que sejam detectadas alterações nos valores hormonais, os médicos especializados é que decidirão a terapia necessária para voltar os valores à normalidade. E quando falamos de médico especializado não estamos falando de oftalmologista, estetiscista ou ortomolecular.

Modulação hormonal

Outra falácia é usar o termo "modulação hormonal" e "hormônios bioidênticos". Essa estratégia é um joguete semântico, afinal quando alguém injeta hormônio em si mesmo, nada mais faz do que alterar seu status hormonal, ou seja, "modula" seus hormônios. Outro termo que vêm sendo usado é a "suplementação" de hormônios, talvez para associar à suplementação alimentar, que muitos consideram inofensiva. No final das contas, todos os termos dizem a mesma coisa, que se está colocando mais hormônios no corpo do que seria normal.

Falar em hormônios bioidênticos também é uma estratégia de apelo comercial que não encontra amparo tecnicamente! Por mais que pareça simpático falar em coisas "naturais", os hormônios sintéticos foram produzidos justamente para minimizar efeitos indesejados enquanto maximizam os positivos. Assim, usar as variações "bioidênticas" seria regredir algumas décadas em termos de qualidade farmacológica. Um exemplo seria o levonorgestrel encontrada nos anticoncepcionais, a qual tem uma afinidade com os receptores mais que 300% superior à progesterona natural. Também podemos falar da oxandrolona, um derivado da testosterona que não sofre aromatização. Ou também do decanoato de nadrolona, que tem um menor efeito androgênico devido ao fato de não se converter em dihidrotestosterona e por aí vai... Ressalta-se que diversos estudos apontam que os "bioidenticos" são menos eficientes que os hormônios normalmente usados (Sood et al., 2013; Whelan et al., 2013).

Aliás, se os hormônios bioidênticos fossem isentos de problemas, os hormônios produzidos por nós mesmos seriam perfeitos, pois não há nada mais "bioidêntico" do que algo produzido por nós mesmos! No entanto, há diversos problemas causados pela liberação excessiva de hormônios como hipertiroidismo, acromegalia, hiperinsulinemia, hiperandrogenia, Síndrome de Cushing, aldosteronismo, ovário policístico, etc. Ou seja, o excesso de hormônios, trará problemas à saúde, independente de sua fonte.

Dve-se ressaltar que área de Modulação Hormonal nem ao menos é reconhecida pela Ciência, pois a sua ideia, por si só, de dar doses "suplementares" de hormônios para melhorar estética e performance é considerada antiética.

Implantes subcutâneos 

O implante subcutâneo de testosterona foi apresentado há quase um século como alternativa aos comprimidos e às injeções. Além da testosterona, outros hormônios são usados nos implantes, como é o caso dos implantes com hormônios femininos, usados nos anticoncepcionais. Os implantes medem poucos centímetros e podem ser inseridos em diversas partes do corpo.

A maior crítica a esse método é a dificuldade em estimar quanta testosterona é liberada, pois a carga hormonal pode variar em mais de 10 vezes para um mesmo tipo de implante!! A estimativa é que cada 200mg de testosterona implantada gere uma liberação de 1,3 a 13,7mg/dia (Lopes et al., 2005). Como a produção da mulher é cerca de 0,2 a 0,4 mg/dia, mesmo, os implantes menores já podem trazer problema. Nesse sentido, um estudo de Buclker et al. (1998) constatou que 100 mg podem gerar não fisiológicos de testosterona em mulheres. 

Normalmente esses implantes terapêuticos são feitos com 8-10 mg de testosterona por quilo de massa para os homens, mas o que se tem visto nos consultórios são implantes acima de 1000mg para mulheres, ou seja, 16 mg/kg para uma mulher de 60kg!!! Com isso a liberação diária de andrógeno superaria facilmente os níveis encontrados nos homens.

Outro problema é que há dificuldade de interrupção imediata do tratamento caso de obtenha algum efeito adverso. Pois a remoção do chip, quando possível, deverá ser feita por meio de uma pequena cirurgia por um profissional especializado. No final das contas, a perda do investimento, o trabalho para remoção e a perda financeira, fazem com que muitas mulheres convivam com a masculinização e alterações fisiológicas negativas.

Considerações finais

Devemos entender que o excesso de hormônios, especialmente a testosterona, está associado há diversos problemas de saúde já conhecidos, como lesões hepáticas, problemas cardiovasculares e alterações negativas nos lipídeos sanguíneos. O fato é que, independente da forma que se tome ou do nome que se dê, no final das contas, os níveis hormonais estão sendo elevados muito acima dos valores normais por meio dessas "terapias". 

Mesmo com relação às terapias, é bom ter cuidado, pois apesar grande parte dos estudos que não encontraram efeitos colaterais com o uso de testosterona foram feitos com duração relativamente curta e números pequenos de participantes. Estudos mais amplos apontam riscos preocupantes. Nesse sentido, há poucos anos um estudo com pacientes idosos sob terapias de testosterona teve que ser interrompido prematuramente devido à elevada incidência de problemas cardiovasculares nos participantes (Basaria et al., 2010). Mais recentemente, um grupo de pesquisadores estadunidenses acompanharam 8709 homens com baixos níveis de testosterona sob terapias hormonais entre os anos de 2005 e 2011 e verificaram que o uso de testosterona foi associado a uma maior incidência de morte, infarto e derrames. E olha que as quantidades eram terapêuticas, coisa de 2,5 a 5mg por dia (Vigen et al., 2013)! Detalhe que foram excluídos das análises os pacientes que tinham contra-indicações ao uso de testosterona (PSA e hematócrito elevado, por exemplo) e esses resultados não mudavam quando eram feitas correções por problemas pré-existentes. Imagina, então, o que acontece com pessoas que tomam doses muito maiores, sem necessidade e que não fazem uma análise adequada dos riscos?

Em termos simples, quem estiver sob essas terapias, está simplesmente tomando bomba! Só que a diferença é que está fazendo isso com uma pessoa formada em medicina e não com o marombeiro-fornecedor. E os tipos, vias e níveis de hormônios prescritos são totalmente absurdos, por exemplo, ainda se prescreve GH, um hormônio comprovadamente ineficiente para hipertrofia há várias décadas, e também se prescreve cargas elevadíssimas de andrógenos em sua forma oral, o que aumenta sobremaneira o efeito tóxico, especialmente ao fígado!

Além de nos questionarmos sobre o riscos e os princípios éticos desse tipo de abordagem, devemos a questionar a sua necessidade, pois vemos muita gente treinando mal, se alimentando mal, descansado pouco e tomando muito hormônio!! Na verdade, se houvesse um pouco mais de disciplina e acompanhamento adequado, os resultados seriam melhores, sem a necessidade de colocar a saúde em risco. 

Ao refletir sobre o tema, fico na dúvida sobre o que seja pior, 1) ver uma pessoa habilitada a exercer uma bela profissão, cujo objetivo é salvar vidas, prescrever hormônios com finalidades estéticas ou 2) ver outros profissionais de saúde estimulando seus alunos a procurarem essas pessoas pois, dessa forma, o aluno consegue resultados mesmo com os treinos precários que vêm recebendo!

Certamente as terapias hormonais tem uma vasta e bela aplicação terapêutica, mas é triste ver seu uso indiscriminado com finalidades estéticas por pessoas inescrupulosas e, em grande parte das vezes, incapacitadas.

 

Referências


Basaria S, Coviello AD, Travison TG, Storer TW, Farwell WR, Jette AM, Eder R, Tennstedt S, Ulloor J, Zhang A, Choong K, Lakshman KM, Mazer NA, Miciek R, Krasnoff J, Elmi A, Knapp PE, Brooks B, Appleman E, Aggarwal S, Bhasin G, Hede-Brierley L, Bhatia A, Collins L, LeBrasseur N, Fiore LD, Bhasin S. Adverse events associated with testosterone administration. N Engl J Med. 2010 Jul 8;363(2):109-22. doi: 10.1056/NEJMoa1000485. Epub 2010 Jun 30.
Buckler HM, Robertson WR, Wu FC. Which androgen replacement therapy for women? J Clin Endocrinol Metab. 1998 83(11):3920-4.
Freriks K, Sas TC, Traas MA, Netea-Maier RT, den Heijer M, Hermus AR, Wit JM, van Alfen-van der Velden JA, Otten BJ, de Muinck Keizer-Schrama SM, Gotthardt M, Dejonckere PH, Zandwijken GR, Menke LA, Timmers HJ. Long-term effects of previous oxandrolone treatment in adult women with Turner syndrome. Eur J Endocrinol. 2012 Dec 10;168(1):91-9. doi: 10.1530/EJE-12-0404. Print 2013 Jan.
Lopes EJA, Santos TC, Góes PM, Srougi M. Implante subcutâneo de testosterona. Rev Bras Med. 2006 63(8): 434-438.
Menke LA, Sas TC, de Muinck Keizer-Schrama SM, Zandwijken GR, de Ridder MA, Odink RJ, Jansen M, Delemarre-van de Waal HA, Stokvis-Brantsma WH, Waelkens JJ, Westerlaken C, Reeser HM, van Trotsenburg AS, Gevers EF, van Buuren S, Dejonckere PH, Hokken-Koelega AC, Otten BJ, Wit JM. Efficacy and safety of oxandrolone in growth hormone-treated girls with turner syndrome. J Clin Endocrinol Metab. 2010 Mar;95(3):1151-60. doi: 10.1210/jc.2009-1821. Epub 2010 Jan 8.
Sood R, Warndahl RA, Schroeder DR, Singh RJ, Rhodes DJ, Wahner-Roedler D, Bahn RS, Shuster LT. Bioidentical compounded hormones: a pharmacokinetic evaluation in a randomized clinical trial. Maturitas. 2013 Apr;74(4):375-82. doi: 10.1016/j.maturitas.2013.01.010. Epub 2013 Feb 4.
Vigen R, O'Donnell CI, Barón AE, Grunwald GK, Maddox TM, Bradley SM, Barqawi A, Woning G, Wierman ME, Plomondon ME, Rumsfeld JS, Ho PM. Association of testosterone therapy with mortality, myocardial infarction, and stroke in men with low testosterone levels. JAMA. 2013 Nov 6;310(17):1829-36. doi: 10.1001/jama.2013.280386.
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