Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

Fisiologia

Gordura marrom e UCP: causas da obesidade?

Paulo Gentil

02/11/2002

Ao contrário do tecido adiposo branco, o marrom é altamente vascularizado, possui alto número de mitocôndrias e tem inúmeros tecidos amielinizados que providenciam estímulos simpáticos aos adipócitos. Suas células apresentam a “mitochondrial uncoupling protein (UCP1)” que dá ao seu mitocôndria a habilidade de inibir a fosforilação oxidativa, atuando diretamente na cadeia de transporte de elétrons, assim, quando o grupo fosfato é separado, a energia não é transmitida para a cadeia de transporte de elétrons, onde produziria ATP, e sim liberada como calor, que chega ao sangue e é transportado pelo corpo. Resumindo, esta enzima faz o organismo produzir calor ao invés de armazenar energia.

Ao descobrir estas propriedades da gordura marrom, muitas pessoas sugeriram maneiras de estimula-la como: treinamentos em ambientes frios e a suplementação de substâncias especificas. Porém, devemos ter em mente que esse tecido corresponde somente a cerca de 5-10% do tecido adiposo de adultos, sendo localizado principalmente em volta do pescoço, ombros, espinha, órgãos importantes e vasos sangüíneos. Em humanos a gordura marrom é mais significativa em recém nascidos, no qual chega a ser responsável por 5% do peso total, diminuindo com o passar do tempo até virtualmente desaparecer. Esta gordura é importante para filhotes em geral e animais que vivem no frio e/ ou que hibernam, justamente pela sua habilidade de produzir energia térmica.

UCP (mitochondrial uncoupling protein) 

Apesar de ser improvável que distúrbios na gordura marrom sejam relacionados ao ganho de peso em humanos, algumas variantes da UCP já foram identificadas. Pesquisadores da Millenium Pharmaceuticals (GIMENO et al, 1997) e da UC Medical Center, Duke University Medical e Center French Centre National de la Recherche Scientifique (Fleury et al , 1997) anunciaram, em momentos diferentes, a descoberta de um gene que pode explicar porque algumas pessoas podem ingerir mais calorias que as outras e ainda assim emagrecer, enquanto as outras engordam. O gene identificado denomina-se dubbed uncoupling protein 2 ou UCP2 (denominado UCPH pelo grupo de GIMENO), e ao contrário da UCP1, encontra-se em vários tecidos humanos incluindo gordura branca, por isso a UCP2 possui um papel muito mais importante na obesidade. Foi verificado que as pessoas que possuem mais dessa proteína produzem mais calor, queimando mais calorias. Esse gene também pode ser responsável pela produção de calor em estados febris e em locais específicos  no caso de inflamações.

Esta proteína, juntamente com a leptina, parecem ter papel importantíssimo na obesidade, uma vez que a leptina regula o apetite e o próprio metabolismo.

Porém não devemos tirar conclusões precipitadas, pois supõe-se que existam de 8 a 30 genes que podem contribuir para a obesidade, portanto esta pode ser uma explicação, mas não a única.

 

Referências


GIMENO RE, DEMBSKI M, WENG X, DENG N, SHYJAN AW, GIMENO CJ, IRIS F, ELLIS SJ, WOOLF EA, TARTAGLIA LA. Cloning and characterization of an uncoupling protein homolog: a potential molecular mediator of human thermogenesis. Diabetes 1997 May;46(5):900-6
FLEURY C, NEVEROVA M, COLLINS S, RAIMBAULT S, CHAMPIGNY O, LEVI-MEYRUEIS C, BOUILLAUD F, SELDIN MF, SURWIT RS, RICQUIER D, WARDEN CH. Uncoupling protein-2: a novel gene linked to obesity and hyperinsulinemia. Nat Genet 1997 Mar;15(3):269-72