Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

Fisiologia

Diabetes 2

Bruno Fischer

22/02/2003

Na primeira parte desse assunto (ver Diabetes: parte 1) foi abordada a diferença entre diabetes tipo 1 e tipo 2, além de apresentar de forma resumida a importância da prática de atividade física para uma melhor qualidade de vida do diabético. Nessa segunda parte será ressaltada a importância da prática regular de atividade física, explicando pontos chaves, tais como: benefícios, riscos, diferenças entre aeróbios e anaeróbios, etc. 

No diabetes o principal defeito está na má regulação do metabolismo da glicose, porém alterações no metabolismo lipídico e protéico também podem ocorrer causando hiperlipidemia e catabolismo protéico, respectivamente. Os principais sintomas do diabetes são: fadiga excessiva; polidpsia (sede excessiva), poliúria (micção excessiva), fome aumentada, perda de peso repentina, visão borrada e má cicatrização. Esses sintomas estão relacionados com a hiperglicemia crônica, e quando essa chega a um estado grave e prolongado pode levar à desidratação, confusão mental, perda da consciência, cetoacidose diabética e à morte. A maioria dos casos de morte no diabetes está relacionado com as complicações a longo prazo da hiperglicemia crônica, e são elas: falência renal crônica, retinopatia (gerando perda da visão), dano aos nervos periféricos (perda da sensibilidade, úlceras de pé), danos ao sistema nervoso autonômico (gerando problemas gastrintestinais, genituitários etc.), além de causar doença cardiovascular aterosclerótica, vascular periférica e cerebrovascular. 

Benefícios do exercício 

Há muito tempo já é sabido que a pratica regular de atividade física é aconselhável para melhorar a qualidade de vida das pessoas, melhorando a saúde física e mental. O diabético também se beneficia bastante da pratica regular de exercício. Além da redução aguda da glicemia e da melhora da sensibilidade à insulina o exercício ajuda a evitar as doenças cardiovasculares, diminuindo os níveis de colesterol sérico e de triglicerídeos. A hipertensão leve a moderada declina consideravelmente, a freqüência cardíaca de repouso e o trabalho cardíaco diminuem, além de melhorar o VO2máx. Psicologicamente os diabéticos também são beneficiados uma vez que a auto-estima é elevada, aumentando a sensação de bem-estar e a qualidade de vida. 

Tipos de exercícios (aeróbios e anaeróbios) 

Aeróbios: Diversos estudos têm sugerido a inclusão de exercícios aeróbios (corrida, caminhada, natação, ciclismo, etc.) no dia a dia de pacientes diabéticos. O maior benefício desse tipo de exercício é a redução do percentual de gordura e melhora da capacidade cárdio-respiratória. Um estudo realizado por POIRIER e colaboradores demonstrou que exercícios aeróbios moderados aumentam a sensibilidade à insulina de indivíduos diabéticos não obesos, enquanto indivíduos obesos não tiveram resultados. Outro estudo feito por ERIKSSON e colaboradores comparou os resultados de exercícios aeróbios e circuito de musculação, o grupo que fez exercícios aeróbios obtiveram um aumento do VO2 e do HDL, mas nenhuma mudança na sensibilidade à insulina. Esses achados sugerem que exercícios aeróbios são mais eficientes quando aliados a uma dieta objetivando redução de gordura corporal, uma vez que tem pouca influência no aumento da sensibilidade à ação da insulina. Em contrapartida, outros estudos têm demonstrado uma melhora na resposta à ação da insulina, mecanismo esse ainda não totalmente compreendido, mas provavelmente está relacionado ao aumento da densidade capilar nos músculos esqueléticos, à maior capacidade oxidativa dos músculos esqueléticos ou a outras adaptações ao treinamento com um conteúdo aumentado de GLUT4 nos músculos (GOODYEAR et al, 1992) 

A orientação quanto o volume X intensidade é de que se exercite entre 50% a 70% do VO2 máx durante 20-60 minutos entre 4-7 dias por semana. 

Anaeróbios: O mais pesquisado treinamento anaeróbio é o circuito de treinamento resistido, mais conhecidos como circuito de musculação. Diversos estudos têm sugerido a inclusão do treinamento de força (musculação) como parte integrante da rotina de atividade física do diabético, uma vez que ajuda a reduzir o percentual de gordura e riscos cardíacos, enquanto aumenta a força muscular e a sensibilidade à insulina (HANKOLA et al, 1997; ERIKSSON et al,1997;ALBRIGHT et al, 2000). GRIMM em um estudo realizado em 1999 concluiu que o treinamento resistido (musculação), quando se trata de melhora da resposta à insulina, oferece vantagens em relação aos exercícios aeróbios. Este mesmo achado foi corroborado por ERIKSSON et al (1998) onde em seu estudo comparando exercício aeróbio com musculação, o grupo que treinou musculação obteve um aumento de 23% na sensibilidade à insulina, enquanto o grupo de aeróbios não sofreu modificações. 

A musculação sem sombra de dúvidas pode trazer vários benefícios para o diabético, tais como: redução dos riscos cardíacos, redução da gordura corporal, aumento da força, flexibilidade e massa muscular, diminuição da pressão sangüínea de repouso, aumento da sensibilidade à insulina, melhora do controle glicêmico, além de benefícios psicológicos decorrentes da melhora da sensação de bem-estar e da qualidade de vida. 

Principais riscos do exercício para diabéticos 

- Hipoglicemia: induzida pelo exercício e pós-exercício de instalação tardia 

- Hiperglicemia após exercício extenuante 

- Hiperglicemia e cetose em pacientes insulino-deficientes 

- Precipitações ou exacerbação de doença cardiovascular (angina, infarto, arritmias, morte súbita) 

- Piora das complicações a longo prazo do diabetes 

- retinopatia proliferativa 

- nefropatia 

- neuropatia periférica (lesões nas articulações e tecidos moles) 

- neuropatia autonômica 

Considerações finais 

A prática de atividade física certamente é muito importante, e a inclusão de exercícios resistidos (musculação) no programa pode promover uma melhor qualidade de vida para o indivíduo. Porém, é importante salientar que antes de se começarem um programa de exercício, todos os diabéticos devem fazer uma avaliação médica completa, a fim de verificar seu estado geral de saúde. Nesses exames serão identificados qualquer complicação a longo prazo que o diabetes possa acarretar. É necessário fazer um teste ergométrico para ajudar a identificar possíveis doenças cardíacas e alterações da pressão arterial. É também imprescindível um exame ocular a fim de identificar a presença de retinopatia diabética, além de exame renal e neurológico. 

Qualquer programa de exercício físico deve ser prescrito individualmente, respeitando os objetivos de cada pessoa e as condições clínicas que cada um se encontra.

 

Referências


ALBRIGHT A, FRANZ M, HORNSBY G, KRISKA A, MARRERO D, ULLRICH I, VERITY LS. 4: American College of Sports Medicine position stand. Exercise and type 2 diabetes. Med Sci Sports Exerc 2000 Jul;32(7):1345-60 
BROCK A. BEAMER, MD. Exercise to Prevent and Treat Diabetes Mellitus physician and sportsmedicine- vol 28- No. 10- October 2000 
ERIKSSON J, TUOMINEN J, VALLE T, SUNDBERG S, SOVIJARVI A, LINDHOLM H, TUOMILEHTO J, KOIVISTO V. Aerobic endurance exercise or circuit-type resistance training for individuals with impaired glucose tolerance? Horm Metab Res 1998 Jan;30(1):37-41 
GRIMM JJ. Interaction of physical activity and diet: implications for insulin-glucose dynamics.Public Health Nutr 1999 Sep;2(3A):363-8 
MARTIN B. DRAZNIN, MD. Type 1 Diabetes and Sports Participation. The physician and sportsmedicine- vol 28- No. 12- December 2000 
SHERI R. COLBERG; DAVID P. SWAIN. Exercise and Diabetes Control The physician and sportsmedicine- vol 28 –No.4- April 2000