Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

Fisiologia

Diabetes: Introdução e a importância da atividade física na prevenção e tratamento

Bruno Fischer

21/12/2003

O diabetes melito é a mais comum disfunção endócrina do pâncreas, atingindo mais de 150 milhões de pessoas em todo mundo, o que significa que quase 5% da população mundial tem essa doença. No Brasil 7.6% das pessoas entre 30 e 69 anos tem diabetes. O diabetes, se não bem controlado, pode trazer sérios riscos para saúde: como insuficiência renal, cegueira, amputações dos pés e pernas, lesões nervosas e doenças cardiovasculares, como hipertensão e derrame.

O diabetes diminui a capacidade que o organismo tem de metabolizar a glicose retirada dos alimentos, uma vez que essa glicose não consegue penetrar na célula, ficando em altas concentrações na corrente sangüínea, o que acaba por fazer com que os rins tenham que trabalhar mais para poder elimina-la pela urina.

A insulina é o hormônio responsável pelo transporte da glicose para o interior de quase todas as células do corpo. Sabendo disso podemos diferenciar os dois tipos mais comum de diabetes: tipo 1 (insulino-dependente) e tipo 2 (não insulino-dependente).

No diabetes tipo 1(insulino-dependente) o pâncreas não é capaz de produzir insulina, sendo necessário tomar injeções periódicas deste hormônio, por isso recebe o nome de insulino-dependente. Essa deficiência na produção de insulina é causada por uma degeneração ou inativação das células beta das ilhotas de Langerhans, localizadas no pâncreas. Acredita-se que o sistema imunológico do indivíduo possa destruir essas células beta devido à alguma infecção viral ou descompensação química. Mas esse processo ainda não é completamente compreendido pela ciência, sabe-se apenas que fatores genéticos podem ter grande influencia. Esse tipo de diabetes geralmente inicia-se na infância ou adolescência, por isso antigamente era denominada de diabetes juvenil.

Diferentemente, no diabetes tipo 2 (não insulino-dependente) o pâncreas produz normalmente a insulina, e em muitos casos até produz uma quantidade maior que a normal, mas a glicose não consegue entrar pois as células dos tecidos não são sensíveis ao hormônio. Para a glicose chegar até o interior da célula é necessário estar presente em quantidades suficientes, além da insulina, alguns receptores chamados de GLUT4 (glucose transporter 4). É como se a insulina fosse a “chave” para entrada da glicose na célula, e o GLUT4 fosse a “fechadura”, ou seja, podem existir várias “chaves” mas se as “fechaduras” não funcionarem ou não estiverem em quantidades suficientes a glicose não entra. Isso é chamado de resistência à insulina. O diabetes tipo 2 é responsável por mais de 90% dos casos de diabetes, e geralmente aparece depois dos 30 anos. 

Como no tipo 1, heranças genéticas podem favorecer o surgimento do diabetes tipo2, mas com certeza um dos principais responsáveis pelo surgimento da doença é o estilo de vida que o indivíduo leva. Nos Estados Unidos cerca de 80% dos pacientes com diabetes tipo2 eram obesos na época do diagnóstico. Portanto a obesidade é um dos principais fatores que desencadeiam o surgimento do diabetes tipo 2. Acredita-se que o risco de desenvolver diabetes tipo 2 aumenta em proporção direta com o aumento da relação cintura-quadril (quando a circunferência abdominal se aproxima ou excede a circunferência do quadril). Indivíduos obesos apresentam uma menor capacidade em responder à ação da insulina, uma vez que apresentam um número reduzido de receptores (RYAN, 2000).

A atividade física constitui sem sombra de dúvidas um dos principais meios preventivos para impedir o surgimento do diabetes tipo 2, pois contribui significativamente para a manutenção de um peso ideal. Além deste papel preventivo, diversos estudos têm sugerido o papel da pratica regular de atividade física no tratamento do diabético, estas pesquisas têm demonstrado que o exercício mantém controlado os níveis de glicemia além de melhorar de forma significativa a sensibilidade à insulina (ALBRIGHT et al,2000; BORGHOUTS & KEIZER, 2000; ERIKSSON et al,1998; MAIORANA et al, 2002).

O tratamento para qualquer tipo de diabetes tem a finalidade de manter um equilíbrio entre a glicose e a insulina. A alimentação pode aumentar a glicemia, enquanto a insulina e o exercício fazem com que ela diminua, portanto é necessário manipular esses três fatores para manter os níveis de glicose próximos aos níveis aceitáveis. No diabetes tipo 1(insulino-dependente) é imprescindível a utilização de medicamento (insulina), mas no diabetes tipo 2 (não insulino-dependente) com uma dieta adequada, a prática regular de exercícios e a obtenção de um peso ideal, somente um em cada dez pacientes necessita de qualquer tipo de medicamento. Em outraspalavras em 90% dos casos o diabetes é evitável e tratável por meio de uma melhoria no estilo de vida.

Na parte 2 desse assunto, será explicado como a atividade física regula a glicemia e aumenta a sensibilidade à insulina, além de fazer uma comparação entre os exercícios aeróbios e exercícios resistidos (musculação) para o tratamento do diabético.

 

Referências


ALBRIGHT A; FRANZ M; HORNSBY G; KRISKA A; MARRERO D; ULLRICH I; VERITY LS. American College of Sports Medicine position stand. Exercise and type 2 diabetes. Med Sci Sports Exerc; 32(7):1345-60, 2000 Ju.
BORGHOUTS LB; KEIZER HÁ. Exercise and insulin sensitivity: a review Int J Sports Med; 21(1):1-12, 2000 Jan. 
ERIKSSON J, TAIMELA S, ERIKSSON K, PARVIAINEN S, PELTONEN J, KUJALA U. Resistance training in the treatment of non-insulin-dependent diabetes mellitus. : Int J Sports Med 1997 May;18(4):242-6 
MAIORANA A; O'DRISCOLL G; GOODMAN C; TAYLOR R; GREEN D. Combined aerobic and resistance exercise improves glycemic control and fitness in type 2 diabetes. Diabetes Res Clin Pract; 56(2):115-23, 2002 May. 
RYAN AS. Insulin resistance with aging: effects of diet and exercise Sports Med; 30(5):327-46, 2000 Nov.