Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

Suplementos  >  Ganho de Massa Muscular

HMB - Beta-hidroxi-beta-metilbutirato

Paulo Gentil

22/10/2002

Os efeitos anticatabólicos da Leucina e seu metabólito KIC tem sido propostos há mais de 40 anos. Atribui-se a eles diminuição da perda de nitrogênio e inibição do processo de degradação da massa muscular, porém isto nunca verificado com clareza, a menos em alguns casos patológicos de proteólise elevada. Alguns pesquisadores basearam-se em estudos feitos em animais para criar a hipótese que o ß-hidroxi-ß-metilbutirato (HMB) seja o responsável pelos efeitos anti-catabólicos por vezes encontrados com a Leucina e seus derivados. O HMB é um metabólito da Leucina naturalmente produzido pelo organismo, em quantidades médias de 200 a 400 mg por dia, podendo também ser obtido a partir da alimentação. No corpo humano cerca de 5% de toda Leucina é convertida em HMB.

Até hoje não se sabe ao certo como o HMB poderia funcionar, no entanto existem duas hipóteses básicas: 1) inibição direta do processo proteolítico; 2) o HMB pode ser similar e covalentemente ligado a estruturas da membrana destruídas sob estresse, o que diminuiria os danos celulares.

Existem muitos estudos acerca dos efeitos dos metabólitos da Leucina, porém uma boa parte deles foi feito em animais, usando-os com sucesso para aumentar o peso e melhorar sua resistência a doenças (KREIDER et, 1994; VAN KOEVERING et al, 1994; NISSEN et al, 1994).

Pesquisas em humanos destreinados.

Em 1996 NISSEN et al, usaram 3 diferentes doses de HMB (0, 1,5 e 3 gramas/dia) combinadas com duas quantidades diárias de proteína (117 e 175 gramas) em pessoas treinando musculação pela primeira vez. De acordo com os resultados, houve diminuição dos marcadores de degradação protéica com a suplementação de HMB, porém as alterações na massa magra e no percentual de gordura não foram significativas. É interessante notar uma "puxada de sardinha" na maioria dos estudos, principalmente os que têm a participação de NISSEN (ou seja, a maioria deles), no citado anteriormente, por exemplo, não houve alteração significativa na massa magra, porém ocorreu uma tendência de aumento, e os autores convenientemente apenas falaram que ocorreu a tendência, dando a impressão de resultados positivos. Também é importante frisar que a maioria dos marcadores de danos celulares não teve redução, porém os pesquisadores se prenderam somente aos marcadores que mostraram resultados positivos. Ainda assim, sem diferença significativa na composição corporal e na maioria dos marcadores de danos celulares, o estudo apresenta duas hipóteses de como o HMB promove sua "mágica" e conclui que a suplementação de HMB em pessoas submetidas a treinamento de força intenso resulta em ganho de massa magra e diminui o catabolismo. Uma observação minha: isto também ocorreu em pessoas que não tomaram HMB e realizaram o treino de força.

Em setembro de 200 foi publicado outro estudo que usou 3 gramas diárias de HMB ou placebo em mulheres submetidas a 4 semanas de treino de força. Com a suplementação, obteve-se uma tendência a redução nos níveis plasmáticos de creatina fosfoquinase (um indicador de danos celulares), com maiores ganhos de força e de massa magra. O grupo experimental ganhou em média 1,4 kg de massa magra e perdeu 1,1% de gordura, enquanto o placebo ganhou 0,9 kg de massa magra e perdeu 0,5% de gordura, sem, no entanto, haver diferença significativa entre os grupos (p = 0,08) (PANTON et al, 2000). Novamente aparecem tendências, sem nada poder ser afirmado.

Em 2000, GALLAGHER et al publicaram um estudo que mostra claramente a necessidade de termos cuidado com a interpretação de pesquisas. Houve três intervenções: sem suplementação de HMB; 38 mg de HMB por quilo de peso corporal e 76 mg/kg por dia. Trinta e sete homens destreinados terminaram o estudo de 8 semanas, que incluía a prática de musculação 3 vezes por semana. Os resultados foram curiosos:
- Não houve diferenças de força nos testes de 1 repetição máxima.
- Nos testes isocinéticos houve superioridade em algumas velocidades para a suplementação de 38 mg/kg e em outras para 76 mg/kg, enquanto no restante não houve diferenças entre os três grupos.
- Dois dias após o treino, os marcadores químicos de danos celulares eram menores nos grupos que suplementavam HMB.
- Não houve diferença nas alterações no percentual de gordura entre os grupos.
- O grupo que utilizou 38 mg/kg ganhou em média 1,9 kg de massa magra, enquanto os outrosgrupos não tiveram alterações.

A parte que intriga é que os níveis de HMB eram maiores quanto maiores fossem as doses ingeridas, sendo assim por que somente o grupo que ingeriu 38 mg/kg teve aumento da massa magra? Se o HMB realmente funciona, por que as doses maiores não produziram nenhum resultado? Se o HMB realmente funciona, por que os testes de força não foram consistentes?

Casos especiais e segurança

Pesquisadores do Centro Médico do Condado de Nassau, usaram a combinação de 3 g de HMB, 14 g de Glutamina e 14 g de Arginina para conter a perda de massa magra em pacientes com AIDS. Sessenta e oito pacientes foram recrutados nesse estudo de 8 semanas, medindo-se o peso corporal, a massa magra e a massa gorda. Ao final do estudo, os pacientes que receberam os suplementos ganharam +/- 3 kg de peso total, enquanto os outros ganharam 370 gramas, este ganho de peso do grupo experimental foi principalmente devido à massa magra (2,55 kg), ao contrário do grupo placebo que perdeu 0,9 kg de massa magra. Outro ponto importante foi um aumento de fatores imunológicos no grupo experimental. (CLARK et al, 2000).

Esta mesma dosagem de 3 gramas foi usada por VUKOVICH et al (1997) em idosos, verificando aumento de 1,5% na massa magra e diminuição de 4,1% na massa gorda ao final de 8 semanas.

Quanto á segurança, NISSEN et al realizaram uma revisão em 2000 e concluíram que até 3 gramas diárias são seguras, mostrando inclusive efeitos positivos no níveis de colesterol. GALLGHER et al (2000) também concluíram que a suplementação de HMB era segura após acompanharem por 8 semanas a utilização de mais de 6 gramas diárias e analisarem fatores enzimáticos relacionados à função hematológicas, hepática e renal. KREIDER et al (2000) e NISSEN et al (1996) usaram doses de 3 gramas diárias e também não encontraram efeitos colaterais com a suplementação de HMB.

Vida real

Vejamos agora os estudos em pessoas treinadas.

Em 1999, KREIDER et al, analisaram os efeitos da suplementação de HMB em homens treinados em musculação. No estudo foi testada a suplementação de 0, 3 ou 6 gramas de HMB juntamente com uma bebida carboidrato e proteína em 40 atletas. Os resultados não mostraram diferença nas alterações na composição nem na força entre os grupos. Apesar das concentrações séricas e urinárias de HMB subirem, os resultados não indicaram nenhuma diferença estatística nos marcadores de anabolismo/catabolismo, massa magra, massa gorda, percentual de gordura e força, Concluindo que a suplementação de HMB não produz efeitos positivos em pessoas treinadas.

No ano seguinte, o mesmo KREIDER participou de outra pesquisa em pessoas treinadas. A amostra era composta por jogadores de futebol americano que estavam habituados a treinar força. Durante o estudo foram administradas 3 gramas diárias de HMB. Novamente os resultados não mostraram mudanças significativas nos marcadores de anabolismo/catabolismo, composição corporal (peso total, percentual de gordura, massa magra...), força, e performance de sprint. Com estes resultados, os autores concluem que o HMB não produz alterações positivas na composição corporal, nem oferece vantagens ergogênicas para atletas bem treinados (KREIDER et al, 2000).

Em uma revisão de literatura, SLATER & JENKINS (2000) afirmam que o HMB pode ter efeitos em pessoas jovens destreinadas, porém não há material suficiente para generalizar os resultados para pessoas treinadas. Os autores alertam ainda para a necessidade de cautela diante da interpretação dos resultados das pesquisas devido à falta de rigor da maioria delas, e (observação minha) manipulação das pesquisas.

Concluindo

As doses de HMB usadas nos estudos são muito altas para a possibilidade (e não certeza) de se obter algum resultado. E veja que estou falando em possibilidades, pois os efeitos, quando encontrados, são reduzidos e foram verificados apenas em pessoas destreinadas ou em condições patológicas, sem comentar a estranha omissão de informações importantes e as conclusões incompatíveis com os resultados da pesquisa.

O uso de HMB para obter resultados estéticos por praticantes de musculação é uma prática de custo financeiro muito elevado e sem eficiência comprovada. Já ouvi muitos comentários sobre o envolvimento do dono da patente do HMB em algumas (para não dizer todas) pesquisas que mostraram resultados positivos desta suplementação. Mesmo que isto não seja verdade, a inconsistência dos estudos e suas falhas metodológicas não permitem que se promova o uso do HMB.

 

Referências


ABUMRAD, N. e col. b-Hydroxy b-Methylnutyrate (HMB) increase fatty acid oxidation by muscle cells. FASEB, 11.3 (1997) A381. 
CLARK RH, FELEKE G, DIN M, YASMIN T, SINGH G, KHAN FA, RATHMACHER JA. Nutritional treatment for acquired immunodeficiency virus-associated wasting using beta-hydroxy beta-methylbutyrate, glutamine, and arginine: a randomized, double-blind, placebo-controlled study. JPEN J Parenter Enteral Nutr 2000 May-Jun;24(3):133-9 
GALLAGHER, P. M, J. A. CARRITHERS, M. P. GODARD, K. E. SCHULZE, and S. W. TRAPPE. b-hydroxy-b-methylbutyrate ingestion, Part I: effects of strength and fat free mass. Med. Sci. Sports Exerc., Vol. 32, No. 12, 2000, pp. 2109-2115. 
KNITTER AE, PANTON L, RATHMACHER JA, PETERSEN A, SHARP R. Effects of beta-hydroxy-beta-methylbutyrate on muscle damage after a prolonged run. J Appl Physiol 2000 Oct;89(4):1340-4 
KREIDER RB, FERREIRA M, WILSON M, ALMADA AL. Effects of calcium beta-hydroxy-beta-methylbutyrate (HMB) supplementation during resistance-training on markers of catabolism, body composition and strength. Int J Sports Med 1999 Nov;20(8):503-9 
KREIDER RB; FERREIRA M; WILSON M; ALMADA AL. Effects of calcium beta-hydroxy-beta-methylbutyrate (HMB) supplementation during resistance-training on markers of catabolism, body composition and strength. Int J Sports Med, 1999 Nov, 20:8, 503-9 
NISSEN S, FAIDLEY TD, ZIMMERMAN DR, IZARD R, FISHER CT. Colostral milk fat percentage and pig performance are enhanced by feeding the leucine metabolite beta-hydroxy-beta-methyl butyrate to sows. J Anim Sci. 1994;72: 2332-2337. 
NISSEN S, FULLER JC JR, SELL J, FERKET PR, RIVES DV. The effect of beta-hydroxy-beta-methylbutyrate on growth, mortality, and carcass qualities of broiler chickens. Poultry Sci. 1994;73:137-155. 
NISSEN S, PANTON L, FULLER J, RICE D, RAY M, SHARP R. Effect of feeding ß-hydroxy-ß-methylbutyrate (HMB) on body composition and strength of women. FASEB J. 1997;11:A150.
NISSEN S, SHARP R, RAY M, RATHMACHER JA, RICE D, FULLER JC, CONNELLY AS, ABUMRAD N. Effect of leucine metabolite beta-hydroxy-beta-methylbutyrate on muscle metabolism during resistance-exercise training. J Appl Physiol 1996 Nov;81(5):2095-104. 
NISSEN S, SHARP RL, PANTON L, VUKOVICH M, TRAPPE S, FULLER JC. beta-hydroxy-beta-methylbutyrate (HMB) supplementation in humans is safe and may decrease cardiovascular risk factors. J Nutr 2000 Aug;130(8):1937-45. 
PANTON LB, RATHMACHER JA, BAIER S, NISSEN S. Nutritional supplementation of the leucine metabolite beta-hydroxy-beta-methylbutyrate (hmb) during resistance training. Nutrition 2000 Sep;16(9):734-9. 
SLATER GJ, JENKINS D Beta-hydroxy-beta-methylbutyrate (HMB) supplementation and the promotion of muscle growth and strength. Sports Med 2000 Aug;30(2):105-16. 
VAN KOEVERING MT, DOLEZAL HG, GILL DR, OWENS FN, STRASIA CA, BUCHANAN DS, LAKE R, NISSEN S. Effects of ß-hydroxy-ß-methyl butyrate on performance and carcass quality of feedlot steers. J Anim Sci. 1994;72: 1927-1935. 
VUKOVICH MD, Stubbs NB, Bohlken RM, Desch MF, Fuller JC, Rathmacher JA. The effect of dietary ß-hydroxy-ß-methyl butyrate (HMB) on strength gains and body composition changes in older adults FASEB J. 1997;11:A376.