Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

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Piruvato

Elke Oliveira

23/08/2004

Em 2004 foi publicada matéria em uma revista de grande circulação nacional com o seguinte titulo: “Pílulas naturais para emagrecer”. Foram citadas várias substancias, entre elas estava o piruvato de cálcio que, segundo a revista “pode ser extraída de frutas e legumes e quando tomada em pequenas doses diárias ajuda a emagrecer e ficar forte”. Para justificar a eficiência do piruvato, os responsáveis pela entrevista citaram um estudo feito no Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, o qual chegou a conclusão que essa substância estimula a queima de gordura corporal.

Além dessa, existem inúmeras outras atribuições dadas ao piruvato por indústrias de suplementos, como:
- Perda de peso (37% maior)
- Queima de gordura (48% maior)
- Inibe o depósito de gordura no corpo
- Aumenta a Força
- Aumenta o desempenho em Exercícios físicos (20-50% maior)
- Aumenta a massa muscular magra
- Diminui a fadiga
- Antioxidante, inibe a produção de radicais livres
- Diminui a osteoporose
- Diminui a glicose no sangue de diabéticos
- Inibe tumores cancerosos
- Inibe a rejeição de órgãos transplantados
- Diminui a Doença de Olho em Diabéticos
- Regenera o "Tecido Morto" do Coração causada por isquemia
- Aumenta a respiração celular

Ácido Pirúvico é uma substância presente em nosso organismo, essencial para o funcionamento do ciclo de Krebs, processo pelo qual o corpo converte o glicogênio e glicose em energia. Já o piruvato de cálcio, encontrado como suplemento, é o acido pirúvico em sua forma estabilizada pela adição de sais de cálcio, atuando como um estabilizante mineral. 

Por serem inúmeras as promessas atribuídas a essa substancia, nosso objetivo será analisar apenas algumas delas. 

Performance

Em 2000, MORRISON et al testaram duas hipóteses: se suplementação de piruvato aumenta a concentração de piruvato no sangue e se uma dosagem de 7g durante sete dias melhora a performance em ciclistas. Para analisar os parâmetros metabólicos, os integrantes da amostra consumiram 7, 15 e 25g/dia de piruvato, e foram monitorados por 4 horas com o objetivo de determinar os metabólitos presentes no sangue após o exercício. No final do estudo foi concluído que a suplementação não foi capaz de elevar significativamente o piruvato do sangue e não ocasionou mudanças nos índices de glicose sanguínea, lactato, glicerol sanguíneo e ácidos graxos livres. Quanto à performance, não houve nenhuma diferença no desempenho dos ciclistas quando o grupo que utilizou o piruvato foi comparado ao placebo. Esses resultados indicam que a suplementação de piruvato não aumenta o índice do piruvato sanguíneo nem o desempenho de ciclistas treinados durante o exercício intenso.

STONE et al, 1999 analisaram os efeitos da suplementação de creatina e piruvato, durante 5 semanas, na massa magra, teste de 1RM de agachamento e supino e impulsão vertical de jogadores de futebol americano. Eles dividiram a amostra em 4 grupos: 1- recebeu monoidrato de creatina, 2- piruvato, 3- piruvato (60%) + creatina (40%) e 4- placebo. Os grupos que suplementaram creatina e piruvato + creatina comparados ao placebo e piruvato mostraram aumentos significativos na massa magra, maior força para realizar 1RM e impulsão vertical. Neste sentido, os autores concluíram que a suplementação de piruvato sozinho, para estes objetivos, se mostrou ineficiente.

Efeitos na perda de peso

A suplementação de piruvato em ratos foi eficiente sendo capaz de aumentar a oxidação de gordura (IVY et al, 1994). Porém, ao verificarmos a dosagem utilizada no estudo, percebemos que a quantidade de piruvato ultrapassa em mais de 10 vezes o recomendado pelos fabricantes de suplementos. Os ratos foram submetidos a 90g/kg de piruvato. Desta forma, se analisarmos de forma relativa poderíamos afirmar que, para se obter os mesmos resultados em humanos, um individuo de 70kg teria que ingerir cerca de 630g de piruvato ao dia!!!

As referências mais citadas para apoiar o uso da suplementação de piruvato são os estudos de STANKO et al, porém quando nos aprofundamos em seus artigos, percebemos que a quantidade de piruvato usada nas metodologias são extremamente altas. Por exemplo, em 1992 eles realizaram um experimento,que mostrou a eficiência do piruvato na perda de peso, porém a dosagem utilizada foi de 30g/dia, somada a uma dieta de 1000 calorias. Já em 1994 STANKO e colaboradores tambémacharam bons resultados, só que desta vez ele usaram 22 a 44g por dia o que equivale 0,3 a 0,6g por peso corporal. Então, como seria possível afirmar que 2 a 6g dessa substancia seriam capazes de produzirem alguma redução significativa no peso corporal, como dizem os vendedores? 

Um dos poucos estudos que utilizam a quantidade de piruvato próxima ao recomendado pelos fabricantes de suplementos foi realizado em 1999 por KALMAN et al, que usaram 6g de piruvato combinados com exercício. Porém, os resultados encontrados são inferiores a vários protocolos que usam somente o exercício e/ou dieta como tratamento. Então cabe perguntar, vale a pena suplementar?

Efeitos na capacidade de endurance

Para justificar o uso de piruvato para aumentos na capacidade de endurance, alguns sites de venda de suplementos citam como referencia um estudo do STANKO et al 1990, no qual as conclusões afirmam que o consumo de oxigênio pode ser aumentado em até 20%. Porém, eles não informam que para chegar a esses resultados a metodologia desse estudo usou uma dieta rica em carboidrato (70%), somado a uma suplementação de 75g/dia de dihidroxiacetona + 25g/dia piruvato (DHAP), além do piruvato não ter sido usada de forma isolada a quantidade foi em média 5 vezes maior a recomendada pelos fabricantes. 
Em outro estudo, KYLE et al (2000) analisaram o efeito da suplementação de 8.1g/d de piruvato (somente) e, neste caso, os autores não encontraram nenhuma diferença significativa na capacidade de endurance em relação ao placebo.

Conclusão

Os estudos científicos usados para afirmar os efeitos positivos do piruvato usaram concomitantemente outras substancias como creatina e dihidroxiacetona, entretanto os suplementos comercialmente disponíveis contêm apenas o piruvato. A dosagem recomendada – 3 a 6 g – parece ser expressivamente pequena, pois os estudos trazem quantidades muito maiores. Em vista disso, é importante estabelecer se o piruvato, como disponível em preparações comerciais, pode eliciar um efeito positivo dentro dos objetivos propostos. 

Muitos irão dizer que começaram a usar o piruvato e tiveram excelentes resultados, mas na verdade a maioria dessas pessoas começaram a usar essa substancia simultaneamente com um programa de exercício e/ou dieta e, por falta de entendimento, acabam atribuindo os resultados ao uso de piruvato.

 

Referências


IVY JL, CORTEZ MY, CHANDLER RM, BYRNE HK, MILLER RH. Effects of pyruvate on the metabolism and insulin resistance of obese Zucker rats. Am J Clin Nutr. Vol.59 n.2 pp:331-7,1994.
KYLE T. EBERSOLE, JEFFREY R. STOUT, JOAN M. ECKERSON,TERRY J. HOUSH, TAMMY K. EVETOVICH, DOUGLAS B. SMITH. The Effect of Pyruvate Supplementation on Critical Power. Am J Clin Nutr. Vol.56 pp:630-63, 1992.
MORRISON MA, SPRIET LL, DYCK DJ. Pyruvate ingestion for 7 days does not improve aerobic performance in well-trained individuals. J ApplPhysiol. Vol. 89 pp: 549–556, 2000.
STANKO RT, REISS REYNOLDS H, HOYSON R., JANOSKY JE, WOLF R. Pyruvate supplementation of a low-cholesterol, low-fat diet: effects on plasma lipid concentrations and body composition in hyperlipidemic patients. American Journal of Clinical Nutrition, Vol. 69. pp: 423-427, 1994.
STANKO RT, ROBERTSON RJ, GALBREATH RW, REILLY JJ, GREENAWALT KD, GOSS FL. Enhanced leg exercise endurance with a high-carbohydrate diet and dihydroxyacetone and pyruvate. J Appl Physiol. Vol.69 pp: 1651-1656, 1990.
STANKO RT, TIETZE DL, ARCH JE. Body composition, energy utilization, and nitrogen metabolism with a 4.25-MJ/d low-energy diet supplemented with pyruvate. American Journal of Clinical Nutrition. Vol 56. pp: 630-635, 1992.
STANKO, RT, TIETZE DL, ARCH JE. Body composition, energy utilization, and nitrogen metabolism with a severely restricted diet supplemented with dihydroxyacetone and pyruvate. American Journal of Clinical Nutrition. Vol.55 pp: 771-776, 1992.
STONE MH, SANBORN K, SMITH LL, O BRYANT HS, HOKE T, UTTER AC, JOHNSON RL, BOROS R, HRUBY J, PIERCE KC, STONE ME, GARNER B. Effects of in-season (5 weeks) creatine and pyruvate supplementation on anaerobic performance and body composition in American football players. Int J Sport Nutr. Vol.9 n.2 pp: 146-65, 1999.