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Segurança cardiovascular e hipertensão arterial

Vandeir Gonçalves

01/07/2003

A hipertensão, definida como pressão sistólica maior ou igual a 140 mmhg e diastólica maior ou igual a 90 mmhg, é uma condição mórbida presente em grande parte da população, relacionada à cerca de 40% dos óbitos no país. No Brasil estima-se que entre vinte a trinta milhões de pessoas sejam hipertensas entre crianças e adultos (FARINATTI, 2002).

Além da nem sempre indispensável intervenção medicamentosa, a mudança nos hábitos de vida é notoriamente uma prática favorável no sentido de se melhorar a qualidade de vida de indivíduos hipertensos. Esta mudança passa entre outras coisas por uma melhora nos hábitos alimentares e na prática regular de atividades físicas.

O AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE (2000) coloca que a prescrição de atividades físicas deve primar por aquelas que visem à melhora da condição aeróbia e de força muscular. Indivíduos hipertensos, porém, necessitam de uma análise que leve em consideração as especificidades de sua patologia, no que diz respeito ao sucesso do procedimento e da segurança oferecida a este organismo. 

Duplo-produto 

A análise dos sinais vitais durante a atividade física usa normalmente como parâmetro qualitativo e de segurança cardiovascular, a freqüência cardíaca e a pressão arterial, de forma isolada ou conjunta, dos indivíduos submetidos ao procedimento. Entretanto para indivíduos hipertensos (assim como para outras faixas populacionais como idosos, diabéticos, obesos, ou mesmo indivíduos normotensos), se faz necessário a análise de um terceiro fator: o duplo-produto (DP).

O DP é definido como produto entre freqüência cardíaca e pressão arterial sistólica (FC X PAS) (FARINATTI & LEITE, 2003). O DP tem forte correlação com o consumo de oxigênio do miocárdio apresentando-se como o melhor preditor indireto do esforço cardiovascular devendo ser usado como parâmetro de segurança do sistema cardiovascular (FARINATTI E ASSIS, 2000). 

Segurança cardiovascular

Aparentemente a sobrecarga imposta ao miocárdio tende a depender mais do tempo do exercício do que da carga em si. Assim sendo, exercícios contra resistência envolvendo cargas altas e poucas repetições, implicaria em menor trabalho cardíaco do que exercícios envolvendo cargas menores com maior número de repetições, como exercícios aeróbios. Estudo conduzido por FARINATTI & ASSIS em 2000 comparou o DP encontrado frente a diferentes solicitações (1 RM; 6RM; 20RM; exercício aeróbio de 5 min; 10min; 15min; e 20 min), e concluiu que, segundo a análise do DP, exercícios dinâmicos contra resistência parecem acarretar menores solicitações cardíacas que exercícios aeróbios, e que o número de repetições parece ter influência maior do que a cargaabsoluta mobilizada. Já para o exercício aeróbio a intensidade parece ser o fator mais influente.

Os mesmos autores chegam a notar que exercícios aeróbios obtiveram a partir do décimo minuto, valores de DP que poderiam ter desencadeado em pacientes com angina pectoris, sensação de desconforto por dores no peito, com risco de intercorrência cardíaca, e tal fato não ocorreu nos exercícios contra resistência.

Exercícios resistidos diversos também acarretam diferentes respostas cardiovasculares. Estudo conduzido por FARINATTI & LEITE (2003) comparando a FC, PAS e DP frente a diferentes exercícios de força, obteve uma elevação significantemente maior para a extensão de pernas (realizada em cadeira extensora), que para exercícios envolvendo a musculatura posterior da coxa e exercícios de membros superiores.

De forma aguda, ocorre um efeito hipotensivo pós-exercício que pode perdurar de alguns minutos até algumas horas subseqüentemente ao término do exercício. Dados indicam que um menor número de repetições, mesmo com cargas relativamente altas, (6 RM), acarreta diminuição na PAS pós-exercício, mantendo este efeito por um tempo prolongado. Já para a pressão arterial diastólica (PAD), um número maior de repetições, com cargas menos intensas (12 repetições com 50% de 6RM), gera maior diminuição pós-esforço. Estes dados, entretanto, não são consenso dentro da literatura (POLITO; SIMÃO; SENNA & FARINATTI; 2003).

Atividades de Vida Diárias (AVDs)

Não existe aqui a intenção de condenar os exercícios aeróbios, visto que os mecanismos exatos da redução da PA e a dose-resposta da atividade física não são completamente esclarecidos. É fato que os exercícios aeróbios podem em médio e longo prazo reduzir a pressão, tanto sistólica quanto diastólica, em uma média de 10 mmhg. Entretanto deve-se levar em consideração que a redução de níveis pressóricos não depende necessariamente de treinamento aeróbio de intensidade alta, e que exercícios de força estão mais associados com as necessidades cotidianas das pessoas (FARINATTI 2002).

Subir um ou dois lances de escada, carregar uma sacola de compras, levantar o próprio peso corporal entre outras atividades, requerem certa capacidade de força, e são muito mais rotineiras do que, por exemplo, ter necessariamente que andar por trinta minutos seguidos. São mais comuns no dia-a-dia das pessoas atividades onde são utilizados níveis consideráveis de força do que aquelas predominantemente contínuas.

Conclusão

Mesmo para sujeitos normotensos, o controle e/ou a redução de níveis pressóricos, é um importante fator para minimizar o risco de doença cardíaca (POLITO; SIMÃO; SENNA & FARINATTI; 2003).

O controle da atividade física direcionada ao hipertenso deve levar em consideração diversos fatores de forma aguda e crônica, e estar realmente associada com a vida rotineira destes indivíduos. O treinamento físico deve, entre outras coisas, preparar as pessoas para viverem de forma melhor e mais hábil.

Os exercícios de força além de potencializarem a conquista deste objetivo, têm grande segurança cardiovascular para indivíduos hipertensos, deste que bem controlados e orientados. 

 

Referências Bibliográficas 


AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE. Guidelines for exercise testing and prescription. 6 ed. Baltimore: Lippincfort Williams & Wilkins, 2000 
FARINATTI, Paulo de Tarso Veras; ASSIS, Bruno F. estudo da freqüência cardíaca, pressão arterial e duplo-produto em exercícios contra-resistência e aeróbio contínuo. Revista brasileira de atividade física e saúde Vol. 5 Nº 2, 2000. 
FARINATTI, Paulo de Tarso Veras. Aspectos da prescrição do exercício para hipertensos. Revista brasileira de fisiologia do exercício Vol. 01 Nº 01, 2002. 
FARINATTI, Paulo de Tarso Veras; LEITE, Tiago Costa; estudo da freqüência cardíaca, pressão arterial e duplo-produto em exercícios resistidos diversos para grupamentos musculares semelhantes. Revista brasileira de fisiologia do exercício Vol. 2 Nº 1 2003.
POLITO, Marcos Doederlein; SIMÃO, Roberto; SENNA, Gilmar Weber; FARINATTI, Paulo de Tarso Veras. Efeito hipotensivo do exercício de força realizado em intensidades diferentes e mesmo volume de trabalho. Revista brasileira de medicina do esporte Vol. 9 Nº 2, 2003.