Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

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Treinamento desportivo e abordagem sistêmica

Paulo gentil

14/09/2003

Paradigmas 

Na idade média predominava a visão orgânica da vida, dominada pelo misticismo e pelo determinismo, nesta época não se objetivava intervir ou predizer os processos da natureza, mas apenas entendê-los. Havia uma estreita relação entre fenômenos espirituais e materiais, portanto qualquer tentativa de intervir em processos ou mudar conceitos era uma afronta direta ao próprio Deus.

Porém por volta dos séculos XVI e XVII houve uma mudança radical nesta perspectiva, substituindo-se a visão orgânica pela visão mecanicista. Surgiram a descrição matemática e o método analítico de raciocínio, sendo os expoentes desta nova tendência grandes gênios como: Isaac Newton, Galileu Galilei, René Descartes e Nicolau Copérnico.

Um dos maiores expoentes deste modelo de raciocínio foi o filósofo René Descartes, a qual defendia que tudo poderia ser explicado pela matemática e que só devemos acreditar nas coisas completamente conhecidas, sobre as quais não há dúvidas, originando, desta forma o cientificismo que nos domina até hoje. É de sua autoria a célebre frase: “penso, logo existo”.

Porém atualmente está ocorrendo uma inversão de paradigma com o crescimento do pensamento sistêmico, ou ecológico. A abordagem reducionista e fragmentada está sendo substituída por uma mais “completa” e integrativa. Segundo Capra “entender as coisas sistemicamente significa, literalmente, colocá-las dentro de um contexto, estabelecer a natureza de suas relações” (Capra, 2001, p.39).

Das partes para o todo 

Uma das heranças mais influentes de Descartes é o método analítico (ou cartesiano), que consiste em decompor os problemas em suas partes menores, para serem submetidas à lógica. Esta brilhante descoberta permitiu à nossa ciência sair da “escuridão” e evoluir enormemente nos séculos seguintes. Entretanto, este progresso veio acompanhado de uma excessiva fragmentação e reducionismo extremo, os quais geraram a crença equivocada de que todos os fenômenos podem ser compreendidos através da redução em suas partes constituintes.

A visão mecanicista dos seres vivos nos aproximou conceitualmente das máquinas, surgindo uma famosa analogia entre o homem e o relógio. Desta forma acreditava-se que o funcionamento de nosso organismo poderia ser compreendido através de sua decomposição em “engrenagens” menores. Tanto que vários fisiologistas tentaram explicar – sem sucesso – diversos processos complexos através da análise linear. Na Educação Física não foi diferente, ao aplicarmos a abordagem cartesiana no treinamento, paramos de observar os seres humanos como totalidade epassamos a vê-los como amontoados de sistemas fisiológicos e biomecânicos, esquecendo que um depende do outro, ou melhor, que qualquer um deles é inseparável dos demais.

A compreensão reducionista de que pelo entendimento das partes poderia se entender o funcionamento do todo levou a diversas teorias equivocadas. De acordo com as teorias mecanicistas o futuro de um sistema poderia ser, em princípio, previsto se seu estado atual fosse totalmente conhecido. Apesar de ainda ser comum aplicar este modelo em nossa fisiologia, não há como prever matematicamente todos os processos de nosso corpo, aqui a soma da propriedade das partes é diferente da propriedade do todo, ou seja, “1 + 1 ≠ 2”. Você soma duas partes e de repente surge algo totalmente novo, com propriedades únicas diferente da simples soma das partes. Peguemos a água como exemplo simples, suas propriedades não advêm nem do oxigênio, nem do hidrogênio, mas sim de sua união.

Não faz sentido, desta forma, procurar subsidiar ou tentar prever o resultado das intervenções (treinos ou dietas) através da compreensão de mecanismos fisiológicos separados da sua totalidade, desta forma é totalmente incoerente tentar encontrar a melhor série, o melhor exercício, a melhor dieta, o melhor suplemento, etc. Assim como não é possível prever os resultados da aplicação denenhum deles através da abordagem reducionista.

Essa imprevisibilidade dos sistemas complexos é bem clara na teoria do caos, com destaque para a chamada “teoria da borboleta”, onde através de três equações complexas acopladas, Edward Lorenz provou que a batida de asas de uma borboleta em Pequim pode causar um furacão em Nova Iorque dentro de um mês. O problema das intervenções motoras e nutricionais (como variações de exercícios, treinos e suplementos) atuais está na raiz: a submissão de estruturas complexas ao método analítico. Normalmente o que se faz é analisar uma reação extremamente complexa e descobrir algum componente que faça parte (ou possa fazer parte) do processo. O próximo passo é isolar o componente e dizer que a intervenção nele traria interferência positiva em todo o processo. Isto é, no mínimo, infantil. É como se um terrorista descobrisse a teoria do "efeito borboleta" e em seguida colocasse dez borboletas juntas em Pequim para destruir nova Iorque. A discussão sobre qual o melhor suplemento ou o melhor exercício seria o mesmo de, no caso anterior, o terrorista ainda discutir o tamanho das asas das borboletas.

A abordagem reducionista nos leva a conhecer componentes cada vez menores, porém não nos leva a compreensão do todo. Sabemos, por exemplo, que há determinados elementos microscópicos envolvidos no processo de hipertrofia muscular, mas ainda não sabemos exatamente como um músculo hipertrofia em resposta ao treino. Talvez o mais importante não seja conhecer elementos microscópicos, mas sim compreender “as atividades integrativas do organismo e suas interações com o meio ambiente” (Capra, 2000 p.98). Daí tira-se mais uma idéia essencial: o mais importante não são as peças, mas sim como elas interagem para formar o todo, ou seja, o foco sai da estrutura para o processo.

Pensando desta forma vemos que pouco adianta saber que substancias compõem ou são liberadas em determinadas reações, antes, deve-se entender como os processos se inter-relacionam. Farei uma analogia com o computador para efeitos didáticos, de nada que você saiba as peças que compõem seu computador, se você não sabe como elas se relacionam para se tornar um computador. Essas peças separadas em cima de sua mesa nada mais são do que peças, porém quando unidas da maneira certa elas formam um objeto completamente novo, capaz de fazer tarefas também novas... e que precisa de um software para fazê-lo funcionar. O que muitos fazem com relação à atividade física e nutrição é abrir o computador, ver o que tem dentro e depois jogar as peças de maneira aleatória.

Qualidade x quantidade 


O modelo mecanicista da vida negava a subjetividade, focalizando-se somente no que pudesse ser medido e quantificado matematicamente. Desta forma o “sentir” foi substituído pelo “medir”. A qualidade deixou de ser essencial, pois ela não poderia ser medida objetivamente, desta forma a intuição do treinador ou as sensações do atleta passam a ser negligenciadas em favor de uma planilha recheada de números. A quantidade de carga, repetições, tempo, etc, passam a ser aspectos essenciais em detrimento da qualidade dos estímulos oferecidos ao organismo.

A nova teoria de sistemas deve substituir a hierarquia pela cooperação, desta forma serão abandonadas as teorias quanto ao fator “principal”, a “melhor” intervenção, pois à medida que reconhecermos nosso corpo como um sistema complexo não linear, reconheceremos também que não há fórmulas mágicas para interferimos nele. Tudo isso nos levará a descobrir formas de tornar a interação entre as diversas partes do sistema mais eficientes, como disse Capra: “Em vez de se concentrar nos elementos ou substancias básicas, a abordagem sistêmica enfatiza princípios básicos de organização.” (Capra, 2000, p.260).

Assim que tomarmos essa consciência, a procura por formulas mágicas não farão mais sentido. Imagine uma estrutura de base triangular, sustentado por três pilares, independente da espessura de cada um deles, todos são essências para sua sustentação, de modo que a retirada de qualquer um deles fará a edificação cair, assim como o fortalecimento de um, de pouco contribuirá para a estabilidade geral da estrutura se os outros não forem também fortalecidos. Obviamente o exemplo do prédio é somente didático, nosso funcionamento estaria mais próximo a uma teia onde o exemplo se aplicaria da mesma forma.

Desta forma qualquer pessoa envolvida com seres humanos, seja educador físico, nutricionista, médico... deverá abrir mão não só de suas antigas teorias, mas de toda base conceitual para poder orientar de forma mais eficiente e humana seu trabalho.

É essencial que se descubra que não basta ter conhecimento (no sentido positivista) para sermos bons profissionais, devemos nos ver como parte inseparável de um sistema maior ao mesmo tempo que nos vemos como um todo composto de um teia de relações. O bom treinador deve ter consciência e intuição, para poder lidar de forma adequada com os complexos problemas do treinamento desportivo, a intuição volta a ter um papel essencial, no sentido de compreender de forma não cognitiva o sistema em questão, ou seja, o bom treinador não será somente o que tem conhecimento cognitivo, mas também o que tem sensibilidade sistêmica para compreender e saber se inserir em um contexto ecológico. Questões como: atleta não é uma pessoa comum, esporte não é saúde, estética não é qualidade de vida deverão ser revistas, pois se uma intervenção causa prejuízo à harmonia do sistema, o problema está com ela e não com o sistema. Desta forma, o estudo da teoria de sistema configura-se como condição indispensável para o sucesso profissional e pessoal.

Obs.: ainda encontrei muita dificuldade em usar termos e exemplos para teoria de sistemas, tendo em vista que até mesmo o vocabulário que possuo é impregnado pelo modelo mecanicista, desta forma usei exemplos reducionistas apenas com fins didáticos e somente para o ponto em questão e nada mais. Palavras como “soma”, “composto”, “parte” e outras também seriam, em principio inadequadas para expressar corretamente aspectos relativos aos sistemas, porém tive de usá-los para facilitar o entendimento e por não dispor de outras melhores. Será que é por isso que se dizia que só é possível filosofar em alemão?

 

Referências


Capra, Frijof. A Teia da Vida: Uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Editora Cultrix, 2001
Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação: A ciência, a Sociedade e a Cultura emergente. São Paulo: Editora Cultrix, 2000.