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Eletroestimulação

Paulo Gentil

12/01/2004

Segundo WILLMORE & COSTILL (2000, pp 34): 

(o processo de contração muscular) é iniciado por um impulso nervoso motor originário do cérebro ou da medula espinhal. O impulso neural chega nas terminações nervosas, denominadas terminais axônicos, os quais estão localizados muito próximos do sarcolema. Quando o impulso chega, essas terminações nervosas secretam uma substância chamada acetilcolina, que se liga a receptores localizados sobre o sacolema. Se uma quantidade suficiente de acetilcolina ligar-se aos receptores, será transmitida uma carga elétrica em toda extensão da fibra muscular, enquanto os canais iônicos se abrem na membrana celular muscular permitindo que o sódio entre. Esse processo é denominado despolarização e resulta no disparo ou geração de um potencial de ação. 

A eletroestimulação simula a passagem do impulso nervoso, levando o músculo a contrair sem a necessidade de um impulso originado pelo próprio sistema nervoso. Aparentemente este tipo de intervenção surgiu para atender (explorar) duas características bastante comuns: preguiça e impaciência. A promessa de uma “atividade” na qual você não precisa nem se mexer e traz resultados inacreditavelmente rápidos e expressivos, em lapsos temporais incrivelmente curtos, realmente é muito atraente. Basta ligar a televisão em horários mortos ou canais de compras para ver a enorme quantidade de promessas nesse sentido. Seguiremos, abaixo, com uma análise técnica da eletroestimulação.

Existem basicamente duas formas de se estimular eletricamente um músculo (WEINECK, 2000): diretamente (eletrodos posicionados sobre o músculo) ou indiretamente (através do nervo que chega ao músculo). 

Algumas características da eletroestimulação 

- Recrutamento das fibras tipo II 

A estimulação elétrica parece favorecer o recrutamento das unidades motoras maiores e mais susceptíveis à hipertrofia (fibras rápidas), as quais são difíceis de recrutar em contrações voluntárias (LAKE, 1992). Segundo Zatsiorsky isto se daria por dois motivos: 

1. O padrão de recrutamento “do menor para o maior”, segundo o qual as fibras tipo I seriam recrutadas em primeiro lugar, não seria respeitado diante de estímulos externos, pois as fibras rápidas possuem limiar mais baixo à aplicação de corrente elétrica externamente entrando mais rapidamente em ação. 

2. Grande parte das fibras rápidas são localizadas em pontos mais superficiais, onde a corrente elétrica chega com mais eficiência. 

Apesar de parecer uma vantagem, este ponto tem seus aspectos negativos ao interferir na coordenação intramuscular e não treinar de forma eficiente as fibras musculares mais fracas. 

Controle da contração 

Há mecanismos de força que impedem os músculos de exercer mais força que ossos e tecidos possam agüentar, ou também obstam que continuemos a exercer força colocando nossos organismos em situação potencialmente lesiva. Ou seja, ao detectar que a contração muscular poderá chegar a níveis lesivos, nosso sistema envia uma mensagem inibitória ao músculo, impedindo que a ação continue. 

A eletroestimulação impede este mecanismo de feedback de atuar, pois o impulso elétrico continuará sendo gerado pelos aparelhos, mesmo que a contração do músculo seja potencialmente lesiva. Desta forma, a atividade pode exceder o ponto até onde se chegaria através do treinamento voluntário, proporcionando um treino intenso e, paradoxalmente, sem esforço, porém aumentando a possibilidade de ocorrência de lesões. SZAREK et al (2003) usaram em coelhos um protocolo de eletroestimução comumente aplicado em crianças com escoliose e verificaram alterações patológicas na morfologia das fibras musculares. Há também pesquisas verificando efeitos negativos em outrosórgãos. KOWALSKI et al, (2001) verificaram alterações patológicas nas glândulas adrenais. BOMBA et al, (2001) encontraram testículos com necrose do epitélio seminífero, atrofia dos túbulos seminais e destruição das células de Leydig (produtoras de testosterona). 

Fins terapêuticos 

A possibilidade de trabalhar grupamentos musculares cujas articulações adjacentes estão imobilizadas é provavelmente o fator mais importante da eletroestimulação, tendo em vista que as atividades motoras são reconhecidamente importantes para a regeneração e fortalecimento das estruturas contráteis e não contráteis, como músculos, tendões, ligamentos e ossos. O uso de eletroestimulação nesses casos pode ser extremamente produtivo ao minimizar os danos decorrentes da imobilização (STEIN et al, 200; LAKE, 1992). 

Comparação entre eletroestimulação e treino convencional 

Pesquisadores eslovenos realizaram um estudo comparando a eficiência de dois protocolos de tratamento conservativo em desordens patelares: exercícios com cargas altas e baixas repetições; e eletrostimulação seletiva do vasto medial. A avaliação clinica e neurofisiológica dos resultados demonstraram que o treino voluntário resultou em maior aumento de força e funcionalidade que a estimulação elétrica. Os autores concluem dizendo que este tipo de treinamento (altas cargas e poucas repetições) pode ser uma boa alternativa como tratamento conservativo em casos de desordens patelares (VENGUST et al 2001). 

Pesquisadores belgas compararam os efeitos do treinamento com eletrostimulação a 100Hz, aos efeitos do treinamento com contrações voluntárias. De acordo com os resultados os efeitos da eletrostimulação são ligeiramente inferiores aos obtidos com contrações voluntárias. Este fato se deve, segundo os autores, à eletroestimulação atuar somente nos fatores periféricos e intracelulares, enquanto as contrações voluntárias também exercem influências no sistema nervoso central e nos comandos nervosos para a contração. No entanto, apesar de a eletroestimulação ser menos eficiente, ela pode ser complementar, pois os tipos e números de unidades motoras treinadas são diferentes nos dois procedimentos (DUCHATEAU & HAINAUT, 1988). 

LYLE & RUTHERFORD (1988) compararam os efeitos do treino com contrações voluntárias (50% CVM – contração voluntária máxima) e estimulação elétrica de 30 Hz (que produz força similar à gerada pela contração a 50% da CVM) feitas através do nervo ulnar. O resultados foi um aumento de 79% para o treino convencional e 74% para a eletroestimulação (sem diferença significativa entre os grupos), com as seqüências temporais de mudança sendo similares nos dois casos. Neste caso, os autores já defendem que, diante dos resultados similares, os fatores neurais não são tão importantes. 

A diferença entre os resultados provavelmente está no protocolo usado, pois tanto a freqüência da corrente (que se traduz na intensidade da contração) quanto as cargas relativas usadas no treinamento convencional eram superiores no estudo de DUCHATEAU & HAINAUT (1988). É notório que os treinos com cargas elevadas são mais propícios para se ganhar força por seus efeitos neurais. Desta forma, quando se comparam treinos convencionais usando cargas elevadas (métodos tensionais) com estimulação elétrica, provavelmente os resultados favorecerão a contração voluntária. Porém, no caso de cargas mais baixas, como em métodos metabólicos, a adaptação pode ter maior relação com fatores periféricos, na qual a estimulação elétrica atua de maneira mais forte e, conseqüentemente, se obtêm resultados similares entre os dois tipos de treino. 

Estimulação elétrica e performance 

Um grupo de pesquisadores franceses investigou a influência de um treino combinado (eletroestimulação e pliometria) no salto vertical de jogadores de vôlei (MAFFIULETTI et al, 2002) e basquete (MAFFIULETTI et al, 2000). 

No estudo com jogadores de vôlei, os treinos envolviam estimulação dos extensores dos joelhos, seguidos pelos flexores plantar e finalizando com saltos pliométricos. Além dos testes “antes e depois”, foram realizadas alguns a mais duas semanas após a finalização do experimento, quando os atletas retomaram seus treinos normais. Na segunda semana houve aumento da contração voluntária máxima (CVM) em 20% e 13% para os extensores do joelho e flexores plantar, respectivamente. Houve ganhos significativos nos diversos tipos de salto testados, como partindo da posição de agachamento e com contra-movimento, sendo estas melhoras mantidas após duas semanas de interrupção do protocolo experimental. 

A pesquisa com jogadores de basquete foi similar, inclusive com a mesma duração. No entanto, o teste pós-experimento foi conduzido quatro semanas após a conclusão da pesquisa. Os resultados foram ligeiramente diferentes: nesta pesquisa a performance dos saltos com contra-movimento não teve alteração, fato que pode ser explicado pela ausência dos saltos pliométricos no protocolo de treino. O curioso é que após as quatro semanas de interrupção, com realização somente dos treinos convencionais este parâmetro foi melhorando em 17% sugerindo que o sistema nervoso levou algum tempo para conseguiu adequar às mudanças locais à necessidade motora. 

Por este motivo, os autores concluem observando a relevância e rapidez com que os resultados foram obtidos e acrescentando que, caso se deseje aumentar o salto vertical com o uso da estimulação elétrica, a intervenção deve conter trabalhos específicos, como a pliometria, para que os resultados sejam benéficos (MAFFIULETTI et al, 2002). 

O estudo de MALATESTA et al (2003) reforça os resultados do grupo de MAFFIULETTI, inclusive afirmando, novamente, que se o objetivo da estimulação elétrica for aumentar a habilidade de saltar verticalmente, deve-se usar movimentos específicos após os treinos para que sistema nervoso central “otimize o controle das propriedades neuromusculares”. Generalizando para os demais esportes: deve-se conciliar racionalmente o treino físico com o trabalho técnico/motor específico, para que o corpo converta suas possibilidades morfofuncionais em ganhos reais à atividade-fim. 

Conclusão 

Substituir o treino convencional pela estimulação elétrica é uma má idéia, pois a contração muscular isoladamente não detém a capacidade de gerar todas as adaptações necessárias. Possivelmente o controle de realimentação gerado pelo movimento (movimento ≠ contração) leva nosso sistema a evoluir, aprimorando a qualidade dos gestos e causando adaptações favoráveis. No entanto, o padrão fragmentado de treino, característico da eletrostimulação, impossibilita a integração sistêmica e gera uma adaptação isolada e artificial. Isto pode levar a alterações patológicas e perda de performance. 

A estimulação elétrica deve ser adequada ao objetivo a ser atingido da mesma forma que um treinamento convencional, observando seu volume, intensidade, freqüência e amplitude da corrente, numero de repetições, intervalos entre as séries. 

A eletroestimulação é um procedimento sério que precisa ser orientado por profissionais especializados. A duração da contração, pausa, número de séries, amplitude da corrente, freqüência de estímulos e demais fatores devem ser controlados de modo a trazer resultados positivos, minimizando os danos. É imprudente comprar aparelhos vendidos enganosamente através da promessa de resultados irreais, e usá-los de forma descontrolada. Nos casos em que a eletroestimulação realmente fôr útil, um profissional saberá indicá-la.

 

Referências


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DUCHATEAU J, HAINAUT K. Training effects of sub-maximal electrostimulation in a human muscle. Med Sci Sports Exerc. 1988 Feb;20(1):99-104. 

KERN H, HOFER C, MODLIN M, FORSTNER C, RASCHKA-HOGLER D, MAYR W, STOHR H. Denervated muscles in humans: limitations and problems of currently used functional electrical stimulation training protocols. Artif Organs. 2002 Mar;26(3):216-8. STEIN RB, CHONG SL, JAMES KB, KIDO A, BELL GJ, TUBMAN LA, BELANGER M. Electrical stimulation for therapy and mobility after spinal cord injury. Prog Brain Res. 2002;137:27-34. 

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VENGUST R, STROJNIK V, PAVLOVCIC V, ANTOLIC V, ZUPANC O. The effect of electrostimulation and high load exercises in patients with patellofemoral joint dysfunction. A preliminary report. Pflugers Arch. 2001;442(6 Suppl 1):R153-4.