Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

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Musculação e crianças: incompatíveis?

Victor Meloni

26/07/2004

Introdução 

A musculação, que também pode ser entendida por treinamento de força é uma modalidade de exercícios que ainda tem uma visão estereotipada e preconceituosa por parte daqueles que não vivem sua realidade, e até mesmo no meio dos profissionais que deveriam estar atualizados com o conhecimento científico produzido nesta área. Quando falamos na aplicação desta atividade em certos grupos, conhecidos como especiais, a controvérsia é ainda maior. 

As crianças são uma população que comumente encontram resistência na prática da musculação, pois se argumenta que esta prática é consideravelmente prejudicial ao seu crescimento e desenvolvimento. Esta é uma atitude muito comum, embora nada normal. O normal seria quetodos os profissionais envolvidos, direta ou indiretamente, com o exercício físico, estivessem a par do que diz a ciência à respeito deste tema, e não advogassem contra uma prática esportiva por medo e ignorância. 

Evidências 

É fato que as crianças não estão plenamente desenvolvidas biologicamente, ou seja, são fisiologicamente imaturas. O sistema hormonal e osteomúsculoarticular ainda encontram-se em franco crescimento e desenvolvimento. A produção de testosterona é praticamente nula, e as estruturas que permitem o crescimento ósseo ainda estão “abertas”. Estas estruturas são a placa epifisária, a epífise e a inserção apofisária, que formam a cartilagem de crescimento (8,11,16). 

Aqueles que contra-indicam a musculação à crianças usam deste argumento para justificar sua posição, ou seja, de que a musculação não traria nenhum benefício às crianças, uma vez que o sistema hormonal não está em condições de dar suporte ao aumento da força (8). Uma estrutura óssea em desenvolvimento também seria uma “porta aberta” para processos lesivos, provocados pela sobrecarga mecânica oferecida pela musculação. Todavia, todos estas justificativas são infundadas, frutos da falta de conhecimento sobre a pratica do treinamento de força e/ou da incapacidade em analisar as evidências científicas. 

A esmagadora maioria das pesquisas demonstra total segurança no treinamento de força desenvolvido em crianças. Os estudos demonstram haver um incremento da força em crianças que participam de um programa que contem exercícios de força (1,3,8,9,12), até mesmo em programas usando vários métodos de treinamento da força muscular, como isométrico, isocinético e isotônico (10). Tomados os devidos procedimentos de segurança, como em todo tipo de pratica esportiva, o treinamento é realizado com eficácia (3,9,15). O aumento de força evidenciado em crianças acontece por meio de mecanismos neurais alterados, como o aprendizado e ativação neuromuscular aprimorada (9). Nenhuma lesão foi observada em vários estudos que aplicaram o treinamento de força à crianças e, assim como em outros indivíduos, os ganhos em força nesta população dependerão do sexo, do volume e da intensidade do treinamento (6,10,15). O argumento de que o treinamento de força atua de maneira negativa na flexibilidade também não encontra suporte na literatura (9). 

A resistência muscular também pode ser aprimorada em crianças que participam de programas com exercícios de força (4). Parece que na fase inicial do treinamento, repetições que caracterizam a resistência são mais apropriadas para o aprimoramento deste tipo de força (5). Com a instrução de pessoal qualificado, adequada progressão no volume e na intensidade do treinamento, as crianças não só podem participar de programas de treinamento de força, como também se divertir (3). O treinamento de força tem-se mostrado eficiente até mesmo em crianças com problemas cerebrais (1), aumentando a força e a capacidade funcional, assim como promoveu alterações favoráveis no nível de lipídios e na composição corporal de crianças obesas (13,14). A performance motora de crianças que participaram de um programa de força também apresentou alterações favoráveis (7). Em relação à doenças cardiovasculares, uma revisão (16) sobre demonstrou não haver nenhumproblema na aplicação desta modalidade de exercícios em indivíduos saudáveis, assim como em hipertensos, e que até mesmo uma redução na pressão arterial de crianças e adolescentes hipertensos pode ocorrer com o treinamento de força. 

Considerações finais

Ao nos disponibilizarmos à pesquisa dos dados existentes acerca do treinamento de força em crianças, encontraremos uma gama de estudos demonstrando a aplicabilidade segura e eficiente deste tipo de exercício. As contradições são inerentes à diversos fatores, como a inércia de alguns profissionais na busca pelo conhecimento científico - que é produzido numa velocidade incrível - na incompetência em analisar criticamente o conteúdo das pesquisas, e tantos outros fatores que geralmente não atuam sozinhos. O treinamento de força é mais uma modalidade de prática esportiva que pode ser oferecida às crianças, aumentando as alternativas para o abandono de uma vida hipocinética, tão comum hoje em dia. Enfim, ao contra-indicarmos qualquer que seja o tipo de exercício, para qualquer que seja a população, devemos estar solidamente embasados, com argumentos irrefutáveis. Não podemos esquecer que o conhecimento é a ferramenta de trabalho do profissional sério e comprometido com seu labor. 


Referências 


1.Blundell SW; Shepherd RB; Dean CM; Adams RD; Cahill BM. Functional strength training in cerebral palsy: a pilot study of a group circuit training class for children aged 4-8 years. Clin Rehabil; 17(1):48-57, 2003
2.Faigenbaum AD; Milliken LA; Loud RL; Burak BT; Doherty CL; Westcott WL. Comparison of 1 and 2 days per week of strength training in children. Res Q Exerc Sport; 73(4):416-24, 2002
3.Faigenbaum AD. Strength training for children and adolescents. Clin Sports Med; 19(4):593-619, 2000 
4.Faigenbaum AD; Westcott WL; Loud RL; Long C. The effects of different resistance training protocols on muscular strength and endurance development in children. Pediatrics; 104(1):e5, 1999
5.Faigenbaum AD; Loud RL; O Connell J; Glover S; Westcott WL. Effects of different resistance training protocols on upper-body strength and endurance development in children. J Strength Cond Res; 15(4):459-65, 2001
6.Falk B; Tenenbaum G. The effectiveness of resistance training in children. A meta-analysis. Sports Med; 22(3):176-86, 1996. 
7.Flanagan SP; Laubach LL; De Marco GM; Alvarez C; Borchers S; Dressman E; Gorka C; Lauer M; Mckelvy A; Metzler M; Poeppelman J; Redmond C; Riggenbach M; Tichar S; Wallis K; Weseli D. Effects of two different strength training modes on motor performance in children. Res Q Exerc Sport; 73(3):340-4, 2002. 
8.Fleck SJ; Kraemer WJ. Fundamentos do Treinamento de Força Muscular. 2ª ed: Porto Alegre: Artmed, 1999. 
9.Guy JA; Micheli LJ. Strength training for children and adolescents. J Am Acad Orthop Surg; 9(1):29-36, 2001
10.Payne VG; Morrow JR; Johnson L; Dalton SN. Resistance training in children and youth: a meta-analysis. Res Q Exerc Sport; 68(1):80-8, 1997
11.Powers SK; Howley ET. Fisiologia do Exercício. Teoria e Aplicação ao Rendimento e ao Desempenho. 3ª ed: São Paulo: 2000. 
12.Sewall L; Micheli, LJ. Strength training for children. J Pediatr Orthop; 6(2):143-6, 1986.
13.Sothern MS; Loftin JM; Udall JN; Suskind RM; Ewing TL; Tang SC; Blecker U. Safety, feasibility, and efficacy of a resistance training program in preadolescent obese children. Am J Med Sci; 319(6):370-5, 2000 
14.Sung RY; Yu CW; Chang SK; Mo SW; Woo KS; Lam CW. Effects of dietary intervention and strength training on blood lipid level in obese children. Arch Dis Child; 86(6):407-10, 2002 
15.Web DR. Strength training in children and adolescents. Pediatr Clin North Am; 37(5); 1187-210, 1990. 
16.Wilmore JH; CostillDL. Fisiologia do Esporte e do Exercício. 2ª ed: São Paulo: 2001