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Avaliação do consumo hídrico de atletas de Corrida de Aventura em provas de curta duração

Narayana Reinehr Ribeiro – Nutricionista Esportiva

09/11/2004

Introdução

         A Corrida de Aventura é uma modalidade esportiva em equipe, na qual os atletas percorrem distâncias variadas, na natureza, entre diferentes pontos utilizando um mapa e alguns equipamentos pré-estabelecidos pela organização da prova.

         Uma das regras da prova é não deixar que os integrantes das equipes se distanciem um dosoutros, o que torna a velocidade máxima do grupo o ritmo dos indivíduos mais lentos. Esse e outrosfatores tornam a Corrida de Aventura um desafio não só para o limite do corpo de cada um, mas também para o relacionamento em grupo, onde a ajuda mútua entre os mais fortes e mais fracos é muito importante, pois se um integrante desistir, toda a equipe é desclassificada.

O treinamento e as provas da Corrida de Aventura são muito desgastantes e exigem bastante do físico do atleta, e justamente por isso é muito freqüente relato de gripes ou diarréias no período próximo à competição e falta de disposição ou energia e câimbras durante a prova. Vale ressaltar que uma alimentação insuficiente em nutrientes e água tem sido considerada um determinante no aparecimento de tais queixas.

         Outro fator interessante é que os atletas devem durante todo o percurso levar em suas mochilas o seu equipamento de segurança, comida e água. Porém, para carregar menos peso e volume, os primeiros itens a perderem espaço nas mochilas são a água e a comida.

 Desidratação

      A desidratação leva a uma diminuição do apetite e conseqüentemente um menor consumo energético acarretando em uma alimentação hipocalórica o que diminui a vontade de beber água. Desta forma, o atleta vai reduzindo seu consumo hídrico e de energia como em um ciclo vicioso e sem perceber fica desidratado e sem energia para a manutenção da intensidade do esforço. Esse fato tem influência direta no rendimento do atleta, no humor, capacidade de concentração, disposição e outros fatores que complicam a convivência em grupo e o rendimento geral de toda a equipe.

      Segundo McArdle e colegas (1996), a água perfaz 40 a 60% da massa corporal de um indivíduo.  Assim, para um bom funcionamento de todo o metabolismo corporal é necessário um estado de euhidratação, pois a água participa de praticamente todos os processos metabólicos do corpo, sejam esses anabólicos ou catabólicos.

      Um consumo hídrico adequado deve girar em torno de 1 ml de água para cada kcal gasta sob condições médias de dispêndio energético e exposição ambiental (National Research Council, 1989).Outra maneira de verificar o volume de líquido que deve ser ingerido ao longo de uma atividade física é pelo peso corporal perdido durante a atividade. Esse peso é utilizado para calcular o percentual de desidratação do atleta e serve como base para atingir uma hidratação correta. Por exemplo, se um atleta de 50kg que perde 2,5kg durante uma prova, teve uma desidratação em torno de 5%.

      Durante o exercício os atletas tipicamente bebem volumes insuficientes de líquidos para suprir as perdas pelo suor. Essa observação tem sido denominada de “desidratação voluntária”(Greenleaf & Sargent, 1965). Este fato deve ser observado, pois se o atleta começa a se preocupar com a hidratação apenas depois de se desidratar e bebe muita água de forma compensativa, isso  pode ocasionar  um desconforto gástrico, uma vez que  a desidratação causada por reposição insuficiente de líquidos durante o exercício reduz a taxa de esvaziamento gástrico (Rehrer et al, 1990).

Levando em consideração que a desidratação é muito comum entre os atletas, o objetivo desse estudo foi avaliar de forma observacioal se a hidratação de atletas de Corrida de Aventura, durante uma prova de curta duração, foi apropriada. A pesquisa foi realizada com 31 voluntários, de ambos os sexos (9 mulheres e 22 homens). A prova teve duração de menos de 1 dia, e as equipes eram compostas por 2 a 4 pessoas. Antes da competição foi realizada uma entrevista, e o atleta foi pesado e algumas dobras cutâneas foram aferidas.    

Discussão dos resultados

    O tempo de prova dos diferentes atletas estudados foi muito variado, por exemplo, a equipe vencedora terminou a prova em 4 horas e 4 minutos e a última equipe a chegar fez um tempo de 9 horas e 6 minutos. Essa grande distância entre os tempos de prova dispersou muito os dados como, o gasto energético e a diferença de peso. Assim, para melhor correlacionar os achados foram analisadas preferencialmente algumas variáveis: A diferença de peso (peso antes – peso depois da prova); a hidratação relacionada com o gasto energético e a hidratação por hora.

 Diferença de peso

A diferença entre o peso antes e logo após a atividade física é muito utilizada para determinar o grau de desidratação do indivíduo, pois a maior parte desse peso perdido é de água. No presente estudo não foi possível estabelecer um padrão de hidratação, mas nota-se bem freqüente uma relação de que o atleta bem hidratado tende a perder menos peso.

Hidratação x Gasto energético

    Sabe-se que quanto maior o gasto energético, maior a necessidade hídrica do nosso organismo.De uma maneira geral, o consumo de líquidos dos atletas estudados aumentou de acordo com o aumento do gasto energético, mas de forma insuficiente ao esperado.Dos atletas acompanhados, apenas 45% consumiram um volume adequado de líquidos. Dos atletas que se hipohidrataram, 16% tiveram um consumo inferior a 50% do esperado.A maioria dos atletas desidratou o suficiente para ter prejuízo no rendimento.Segundo Murray, R (1992), uma desidratação de apenas 1% já prejudica a termorregulação, respostas fisiológicas e o rendimento do atleta.

    Os resultados do estudo revelaram que dos 32 atletas acompanhados, 84% perderam mais de 2% de peso durante a prova. Sendo a média de perda igual a 3,8%, a menor perda  0,62% e a maior 7,15%,o que implica em grandes riscos à saúde. Segundo Wolinsky (1996), a perda de 5% de água do corpo pode conduzir a uma exaustão de calor; 7% pode causar alucinações e 10% pode levar a acidentes vasculares cerebrais devido ao calor e conseqüentemente ao óbito.        

Hidratação por hora

    Como a duração da prova foi diferente para os diversos atletas, verificar a hidratação total dividida pelo tempo individual de prova de cada atleta se tornou mais eficiente que o volume hídrico total por si só. Segundo Richard Kreider (1991), uma hidratação adequada para exercícios prolongados deve ser de 100 a 200 ml a cada 5 a 10 minutos de prova. Com base nesses dados a hidratação mínima por hora deve ser em torno de 600ml, e com base no volume de esvaziamento gástrico, não ajuda muito se ultrapassar 1 litro por hora (Wolinsky, 1993).

    Dos atletas acompanhados, nenhum superou a hidratação de 1 litro por hora, a média ficou em 0,58 litros, o que significa que a maior parte dos atletas ingeriu menos que o mínimo aceitável para uma correta reposição de líquidos corporais. A melhor hidratação por hora ficou em 0,984 e a menor em 0,226. De acordo com os resultados, 48% dos atletas tiveram uma hidratação, por hora, igual ou superior a 600ml. Dos atletas que não atingiram o nível mínimo esperado, 19% ficaram abaixo de 300ml por hora, quer dizer, não chegaram nem à metade do mínimo esperado.  

Considerações Finais

    A modalidade esportiva Corrida de Aventura é nova e por isso possui poucos estudos, o que dificulta a comparação dos resultados encontrados com outros da mesma modalidade.Com base na média de hidratação por hora e o valor de gasto/hidratação que foram encontrados na população estudada, a conclusão do estudo foi de que a maioria dos atletas de corrida de aventura não se hidrata corretamente. Isso é um risco, uma vez que eles se encontram a maior parte do tempo em ambientes naturais inóspitos. Além disso, a desidratação aumenta os riscos de lesões, já inerentes a esse tipo de competição.

    A recomendação para provas de Corrida de Aventura de curta duração, com base nos resultados do estudo, é que os atletas levem consigo pelo menos 2/3 do consumo hídrico adequado. Esse cálculo deve ser baseado no valor de 1 litro por hora prevista de prova. Se não houver rios ou pontos de reabastecimento de líquidos durante a prova, o cálculo deve ser feito com base no valor mínimo de 600 ml por hora, prevista de prova mais um adicional de 20% para possíveis atrasos naprevisão de chegada.

 

Referencias Bibliograficas

 

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WOLINSKY, I.,HICCKSON, J.F. Nutrição no Exercício e no Esporte. SP: Ed   Roca, 1996