Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

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Percepção de esforço

Elke Oliveira

28/02/2005

Introdução

O ser humano é psico-somático, isto é, fatores psico-sociais, medo, ansiedade e personalidade podem afetar as respostas somáticas, portanto, a International Organization for Standardization (1981) recomenda que sejam observados tanto dados objetivos (quantitativos) quanto subjetivos (perceptivos) para melhorar a eficiência da prescrição e prática de atividades físicas. 

Muitos julgamentos qualitativos podem, através de expressões verbais, ter utilidade ao se avaliar a intensidade durante o exercício. Para isso, faz-se necessário determinar um método capaz de regular a qualidade e a magnitude do esforço de maneira adequada a diversos tipos de treinamento e pessoas. 
O conceito de percepção subjetiva de esforço (PSE) originou-se a partir de um estudo piloto realizado por BORG & DAHLSTRÖM há mais de cinco décadas. Em 1966, Borg constatou, através de uma escala, que a tensão fisiológica aumenta de forma linear com a intensidade e a percepção do esforço. 

Desde então, escalas de percepção de esforço vêm sendo amplamente empregadas em pesquisas que objetivam medir esforços físicos. Os primeiros estudos se baseavam principalmente em duas formas de esforço: 1- Local (sensação de tensão, dor e fadiga na musculatura envolvida) e 2- Geral (baseada na resposta do sistema cardio-pulmonar). Mais tarde, outro componente emocional foi introduzido, denominado pelo autor de aversão a tarefa. É de extrema importância que esses três componentes sejam avaliados concomitantemente quando o objetivo for identificar os níveis (zonas) de intensidades do exercício (BORG, 2000).
Existem várias escalas/métodos para avaliar a percepção de esforço, entre elas podemos citar:

RPE (Rating of Perceived Exertion) de Borg

A RPE é uma escala comumente usada para determinar a percepção subjetiva de esforço (PSE) em testes ergométricos, treinamentos e reabilitação. A avaliação da intensidade é feita através da falta ar e fadiga durante exercícios contínuos. 

A numeração da tabela vai de 6 a 20, e cada número impar é verbalmente ancorado. O número 6 equivale a uma freqüência cardíaca de aproximadamente 60 bpm, considerado um valor médio de repouso. Já o número 20 se refere à sensação máxima absoluta, a qual muitos indivíduos nunca experimentaram. Em 1985, Borg fez algumas alterações mudando as ancoras verbais e deslocou a expressão do número 7 um pouco para cima, melhorando a linearidade com os níveis de esforço e freqüência cardíaca.

Tabela 1 - Escala RPE de Borg

6 Sem nunhum esforço
7 Extremamente leve
8  
9 Muito leve
10  
11 Leve
12  
13 Um pouco intenso
14  
15 Intenso (pesado)
16  
17 Muito intenso
18  
19 Extremamente intenso
20 Esforço máximo


CR10 (category-ratio 10) de Borg

A escala de relações de categorias (category-ratio - CR) é similar a anterior, porém determinada por critérios psicofísicos internos. Esta é uma escala “ancorada” no número 10, valor que representa a intensidade máxima. A CR10 é uma escala geral de intensidade para a maioria das magnitudes subjetivas e pode ser utilizada na mensuração do esforço e da dor com a possibilidade de determinar tanto níveis relativos quanto absolutos de intensidade (BORG, 2000). 

A CR10 tem sido usada para avaliar a percepção subjetiva de esforço e intensidade do treinamento de força (KRAEMER et al, 1987), contudo, recentemente, ROBERTSON (2003) validou a escala OMNI-Resistance Exercise Scale (OMNI-RES) desenvolvida especialmente para isso.

Tabela 2 - Escala CR10 de Borg

0 Absolutamente nada "Sem D"
0,3    
0,5 Extremamente fraco Apenas perceptível
1 Muito Fraco  
1,5    
2 Fraco Leve
2,5    
3 Moderado  
4    
5 Forte intenso
6    
7 Muito forte  
8    
9    
10 Extremamente forte "D Máx"
11    
...    
Máximo absoluto O mais intenso possível



OMNI-RES (OMNI-Resistance Exercise Scale)

A escala OMNI-RES apresenta ilustrações com levantamento de peso, para que o indivíduo avaliado faça associações com o esforço percebido. Para validar essa escala, ROBERTSON et al (2003) compararam a percepção de esforço entre séries de 4, 8 e 12 repetições, realizadas com 65% de 1RM. Os resultados demonstraram que houve um aumento linear da PSE à medida que o número de repetições e concentrações de lactato aumentava, sugerindo que a escala OMNI-RES seja valida para medir o esforço percebido na realização do treinamento de força. 



Estudos com escalas de percepção de esforço

Atualmente, vários estudos têm usado a escala RPE de Borg para validar e regular a intensidade do esforço em vários tipos de treinamento. Porém, a maioria dos experimentos foi realizada com jovens e durante poucas sessões de treinamento. Neste sentido, DUNBAR & KALINSKI (2004), resolveram testar mulheres pós-menopausa (media: 71 anos) durante 20 semanas de treinamento. O objetivo foi comparar as freqüências cardíacas (FC) equivalentes aos 40, 50 e 60% do VO2 max com a PSE. Os resultados demonstraram que nas intensidades de 40 e 50% do VO2max a PSE coincidiu com taxa alvo de FC. Porém, com intensidade de 60%, a PSE ficou abaixo, mas ao final do treinamento essa diferença foi minimizada, sugerindo que a RPE pode ser usada para regular a intensidade do exercício em mulheres pós-menopausa. Outro estudo em idosos, porém com indivíduos do sexo masculino, chegou à mesma conclusão (GRANGE, et al 2004).
SUMINSKI et al (1997) testaram a relação entre atividade muscular (EMG) e aumentos dos níveis de lactato com a percepção de esforço usando a escala RPE. Os resultados demonstraram que a PSE aumentou com a atividade muscular (EMG) em resposta a intensidade do exercício a 30%, 60% e 90% de 1-RM, e que existe uma forte correlação entre o aumento de lactato no sangue e a percepção do esforço com o treinamento de força. 

Recentemente HOLLANDER et al (2003), realizaram um estudo muito interessante, onde a percepção de esforço e da dor, ocasionadas pelas contrações concêntricas e excêntricas (com a mesma carga), foi comparada com o aumento das concentrações de lactato. Ao final do estudo, os resultados indicaram que a percepção do esforço e da dor e lactato sanguíneo foram maiores nas contrações concêntricas, indicando que um estresse fisiológico (maior recrutamento de unidades motoras, atividade glicolítica e concentração de lactato) pode ser mais associado com a PSE e a dor, que a carga propriamente dita.
A percepção de esforço também tem sido avaliada em crianças, inclusive mostrando correlações significativas com variáveis fisiológicas (VO2 max, ventilação respiratória e freqüência cardíaca) usando a escala de OMNI-walking/running (UTTER et al, 2002).



Conclusão

Muitos profissionais estão utilizando a percepção de esforço como indicador de intensidade, tanto física quanto psicológica, porém não se pode esquecer da complexidade que é avaliar os fatores associados às respostas fisiológicas. Desta forma, é importante ter o conhecimento pleno da atividade a ser prescrita e utilizar somente métodos confiáveis e, principalmente, de forma correta.

Entretanto, os indivíduos avaliados devem ser aptos a seguirem as explicações, pois relatos baseados em estimativas feitas pelo ACSM, concluíram que 5 a 10% dos adultos podem ter dificuldades em responder as instruções da escala de RPE e CR10. Inclusive, indivíduos que estão muito abaixo da inteligência média, tornam esse percentual ainda maior. Outras ocorrências que podem causar erros no uso das escalas, são as alterações ilegais do formato, cores e gráficos que mudam as propriedades métricas, e o mau posicionamento ou troca das ancoras verbais.


Referências Bibliográficas


1. BORG G. Escalas de Borg para a dor e o esforço percebido. São Paulo, Manole, 2000.
2. DUNBAR C, KALINSKI MI. Using rpe to regulate exercise intensity uring a 20-week training program for postmenopausal women: a pilot study. Percept Mot Skills. Vol. 99 N° 2. pp: 688-90. 2004
3. GRANGE CC, MAIRE J, GROSLAMBERT A, TORDI N, DUGUE B, PERNIN JN, ROUILLON JD. Perceived exertion and rehabilitation with arm crank in elderly patients after total hip arthroplasty: A preliminary study. Vol. 41. N° 4. pp: 611-20. J Rehabil Res Dev. 2004
4. HOLLANDER DB, DURAND RJ, TRYNICKI JL, LAROCK D, CASTRACANE VD, HEBERT EP, KRAEMER RR. RPE, Pain, and Physiological Adjustment to Concentric and Eccentric Contractions. Medicine and Science in Sports and Exercise. Vol.35, N° 6, pp:1017–1025, 2003.
5. International Organization for Standardization.1981.Ergonomic principles in the design of work systems, part 4.2.ISO 6385.
6. KRAEMER WJ, NOBLE B, CLARK M, CULVER B. Physiologic responses to heavy-resistance exercise with very short rest periods. International Journal of Sports Medicine. Vol. 8, N° 2 pp:247-252, 1987.
7. LAGALLY KM, ROBERTSON RJ, GALLAGHER KI, GOSS FL, JAKICIC JM, LEPHART S, GOODPASTER B. Perceived exertion, electromyography, and blood lactate during acute bouts of resistance exercise. Med. Sci. Sports Exer., Vol. 34, No. 3, pp. 552–559, 2002.
8. ROBERTSON RJ, GOSS FL, RUTKOWSKI J, LENZ B, DIXON C, TIMMER J, FRAZEE, DUBE J, ANDRACCI J. Concurrent validation of the OMNI perceived exertion scale for resistance exercise. Medicine and Science in Sports and Exercise. Vol.35, N° 2 pp:333-341, 2003.
9. ROBERTSON RJ, GOSS FL, RUTKOWSKI J, LENZ B, DIXON C, TIMMER J, FRAZEE K, DUBE J, ANDREACCI J. Concurrent Validation of the OMNI Perceived Exertion Scale for Resistance Exercise. Med. Sci. Sports Exerc. Vol. 35, N° 2. pp. 333–341, 2003.
10. SUMINSKI, R. ROBERTSON RJ, ARSLANIAN S, et al. Perception of effort during resistance exercise. J. Strength Cond. Res. 11:261–265, 1997.
11. UTTER AC, ROBERTSON RJ, NIEMAN DC, KANG J. Children’s OMNI Scale of evaluation. Med. Sci. Sports Exerc., Vol. 34, No 1, pp. 139–144, 2002