Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

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Cadência de pedaladas, pedivelas e a eficiência mecânica no ciclismo de estrada

Marcelo Rocha

07/08/2007

Em 1988, Hull e Gonzáles verificaram que a combinação do tamanho correto de pedivelas com a freqüência de pedaladas do ciclista levam a um bom rendimento mecânico. Foi concluído pelos mesmos que na medida em que aumenta o tamanho das pernas do ciclista, deve-se aumentar o tamanho das pedivelas em conjunto com a adequação da cadência de pedaladas. Eles verificaram que aumentando o tamanho dos músculos (comprimento), aumenta o alcance de trabalho dos mesmos; e aplicando um pouco de Física e Biomecânica viram que aumentando as pedivelas, aumentam os ângulos de trabalho das articulações e assim se aperfeiçoa o trabalho muscular. Em 1990, Ambrosini admitiu ser conveniente que o tamanho das pedivelas seja menor que a metade do comprimento das coxas; sugeriu ainda que quanto maiores as pedivelas, menor a força aplicada sobre os pedais para vencer a resistência. Já Vespini s/d, mostra que pedivelas maiores, podem chegar a produzir dores articulares, sobretudo não permitindo um pedalar suave (alguns indivíduos por menores que sejam sempre querem utilizar pedivelas maiores).  

Ambrosini propôs as seguintes relações para as pedivelas, relacionando seu tamanho, com a altura do entre-pernas:  

Entre-pernas (cm)

Pedivelas (cm)

Até 83

16,5

Até 84

16,6

Até 85

16,7

Até 86

16,8

Até 87

16,9

De 88 a 93

17

Até 94

17,1

Até 95

17,2

Até 96

17,3

Até 97

17,4

De 98 em diante

17,5

 

Já em 1996, Burke apresentou uma outra tabela referencial para que fossem calculadas as pedivelas:  

Pedivelas
(mm)

Altura
(m)

160.0

<1.52

165.0-167.5

>1.52-<1.68

170.0

>1.68-<1.83

172.5

>1.83-<1.89

175.0

>1.89-<1.95

180.0-185.0

>1.95

 

Ainda em 1988, Hull, Gonzáles e Redfield concluíram algo curioso em outro artigo publicado que possuía algumas limitações de metodologia: um indivíduo de 177 cm de altura submetido a testes com uma pedivela de 145 mm , mostrou o que eles chamaram de “ótimo” desempenho, ao produzir boa potência de pedaladas a 110rpm. Vejam, que pela tabela apresentada por Burke a pedivela ideal para esse indivíduo seria a de 170mm. Mesmo com limitações o trabalho nos mostra que devemos levar em conta também a característica de pedaladas dos ciclistas para a escolha da pedivela correta, esse ciclista mostrou “ótimo” desempenho com uma alta cadência de pedaladas.  

 

Cadência de pedaladas  

A cadência de pedaladas é outro instrumento de grande valia para os ciclistas, visto que ela pode ser modificada durante a pedalada. Umberger, Gerritsen e Martin em 2005, mostraram que na medida em que a cadência de pedaladas se aproxima de 40rpm existe baixa eficiência mecânica; chegando próximo das 120rpm, a eficiência diminui substancialmente. Foi encontrado um “platô” de eficiência entre 60-100rpm. Em 1997, Marsh e Martin testaram corredores, ciclistas e indivíduos menos-treinados com variadas cargas e cadências (50, 65, 80, 95, 110 rpm e cadência preferencial); eles concluíram que independente da situação a que eram submetidos nos testes, os indivíduos com boa aptidão cardiorrespiratória (corredores e ciclistas) preferiam uma cadência entre 90-100rpm. Já os menos-treinados optavam por algo em torno de 65 rpm (menor custo cardiorrespiratório). Um pouco antes em 1996 Gotshall, Bauer e Fahrner submeteram ciclistas a testes com carga constante com o objetivo de avaliar a variação hemodinâmica (fluxo sanguíneo), e viram que na medida em que aumenta a cadência, aumenta o custo cardiorrespiratório e aumentam também o fluxo sanguíneo e retorno venoso (talvez já ajude a explicar a escolha de alguns ciclistas por cadências de pedalada mais altas).  

Patterson e Moreno em 1990 aplicaram testes com cargas variadas e cadência entre 40-120rpm a indivíduos com ciclismo recreacional. Concluíram que pedalar em cadências mais altas implica em um maior consumo de O2, porém reduz as forças periféricas (menor desgaste neuromuscular). Já mais tarde em 2001, Lucia, Hoyos e Chicharro analisaram a cadência média de 7 ciclistas profissionais na Volta da França, Volta da Espanha e Giro de Itália (21 dias de análise em cada volta); conclusão: nas etapas de 50km contra-relógio e nas etapas predominantemente planas com 190km, eles preferiam uma cadência em torno de 90rpm. E nas altas montanhas com 15km, eles preferiam a cadência de 70rpm, para diminuir o custo cardiorrespiratório. Denadai, Ruas e Figueira em 2005, mostraram que a cadência preferencial dos ciclistas profissionais, gira em torno de 80-100rpm. Apesar de ser não a melhor faixa de eficiência bruta (menor gasto energético relativo à potência aplicada), essa faixa é a que apresenta maior eficiência neuromuscular (com menor aplicação de força no pedal e menor propensão à fadiga periférica).  

Vimos acima que algumas considerações devem ser feitas na busca de uma pedalada ideal para cada indivíduo. Fatores como o tamanho das pedivelas, tamanho do ciclista e característica de pedalada do mesmo devem ser bem observados para um bom desempenho.  

 

Considerações finais  

É cada vez mais evidente a interferência do conhecimento técnico-científico no Ciclismo e no esporte de alto rendimento; vimos vários fatores que por mais simples que sejam afetam diretamente o rendimento junto à eficiência mecânica. O fato de simplesmente se alterar a cadência, mostra respostas fisiológicas diferentes (de todos os fatores, a cadência é a única que pode ser alterada durante o treino), alterando-se as pedivelas, alteram-se as relações de força; e como conseqüência detodas essas alterações, é criada uma interferência positiva ou negativa no rendimento do atleta.

 

Referências bibliográficas

 

1. Ambrosini C. (1990): La técnica del ciclismo. Barcelona: Hispano Europea.
2. Burke ER (1996): High-Tech Cycling. Champaign: Human Kinetics.
3. Denadai BS, Ruas VDA, Figueira TR (2005): Efeito da cadência de pedalada sobre as respostas metabólica e cardiovascular durante o exercício incremental e de carga constante em indivíduos ativos.Rev Bras Med Esporte -  Vol. 11, Nº 5 – Set/Out, 2005.
4. Gotshall RW, Bauer TA, Fahrner SL (1996): Cycling cadence alters exercise hemodynamics.International Journal of Sports and Medicine. Jan; 17(1):17-21 
5. Hull ML, Gonzales HK (1988): Bivariate optimization of pedalling rate and crank arm length in cycling.Journal of Biomechanics. 21 (10), 839-849.
6. Hull ML, Gonzales HK, Redfield R (1988): Optimization of pedalling rate in cycling using a muscle stress-based objective function. International Journal of Sport Biomechanics. 4, 001-020.
7. Lucia A, Hoyos J, Chicharro JL (2001): Preferred pedaling cadence in Professional cycling. Medicine Science of Sports and Exercise. Aug;33(8):1361-6
8. Marsh AP, Martin PE (1997): Effect of cycling experience, aerobic power, and power output on preferred and most economical cycling cadences. Medicine Science of Sports and Exercise. Sep;29(9):1225-32 
9. Patterson RP, Moreno MI (1990): Bicycle pedaling forces as a function of pedaling rate and power output. Medicine Science of Sports and Exercise. Aug;22(4):512-6.
10.  Umberger BR, Gerritsen KG, Martin PE (2005): Muscle fiber type effects on energetically optimal cadences in cycling. Journal of Biomechanics. May 26.
11. Vespini JP (s/d): Manual tutor del ciclismo. Madri: Tutor