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Obesidade infantil: prevalência, causas e consequências

Elke Oliveira e Bruna Motta

01/08/2011

Obesidade é definida como acúmulo excessivo de gordura corporal capaz de trazer consequências negativas para a saúde, caracterizando-se como uma doença crônico-degenerativa. 

Na atualidade, uma das principais preocupações dos profissionais da área da saúde é que a obesidade, na maioria das pessoas, iniciou-se na infância ou na adolescência. Inclusive, diversos estudos têm demonstrado um aumento considerável na prevalência da obesidade infantil, o que torna o problema ainda mais grave. Pois, além de ser um grande preditor da obesidade na vida adulta, o sobrepeso está associado ao aumento dos riscos de várias doenças.

Dados da Organização Mundial de Saúde demonstram que existem no mundo 17,6 milhões de crianças menores de cinco anos com obesidade. Na faixa etária de seis a 11 anos, o número de crianças com sobrepeso dobrou nas últimas quatro décadas. Nos Estados Unidos, a prevalência aumentou 62%, passou de 16,8% para 27,3%. Já em alguns países europeus, o crescimento foi de 10 a 40% nos últimos anos (WHO, 2004). 
No Brasil, as informações ainda são escassas e muitos pesquisadores costumam analisar faixas etárias específicas e com amostras pequenas. Entretanto, não há dúvidas de que houve um aumento significativo na prevalência de obesidade em crianças e adolescentes brasileiros. Nas últimas décadas, por exemplo, a quantidade de adolescentes com sobrepeso passou de 3,7% para 12,6%, isto é, um aumento próximo a 240% (Wang et al. 2002). Dados do ministério da saúde revelam que em 1989 quase um milhão e meio de crianças com idade inferior a 10 anos estavam obesas, sendo a maior prevalência nas famílias de maior renda (Monteiro e Conde, 1999).

Esses números fazem com que a obesidade seja vista como uma epidemia, um problema de saúde pública mundial. Para se ter uma idéia, o custo do tratamento da obesidade, nos países industrializados, atinge de 2% a 8% do gasto total com a saúde. No Brasil, uma pesquisa realizada em 2003 demonstrou que aproximadamente 1 bilhão e 100 milhões de reais são gastos a cada ano com a obesidade e as doenças associadas a ela (Porto et al. 2007). 

Neste sentido, a prevenção com a adoção de medidas que promovam hábitos saudáveis se torna extremamente importante, principalmente no início de nossas vidas. Pois, além de trazer melhor qualidade, isso irá contribuir para a redução dos gastos públicos. 

CAUSAS

A etiologia da obesidade é bastante complexa e ainda não está completamente entendida. Acredita-se que a ingestão calórica inadequada seja uma das principais causas (Bray, 1992). Entretanto, várias pesquisas demonstram fortes evidências que a falta de exercício físico está associada aos maiores riscos da obesidade (Jebb e Moore, 1999).

No Brasil, um fator de destaque foi a mudança no cardápio da população, que contribuiu para diminuir a desnutrição infantil, mas, ao mesmo tempo, aumentou o sobrepeso e a obesidade, processo conhecido por transição nutricional (Monteiro e Conde, 1999). Citar apenas alguns motivos pelos quais essa epidemia está acontecendo seria um equívoco, pois a obesidade é consequência de vários aspectos interligados e influenciados entre si, como: genético, cultural, financeiro, metabólico, nutricional, ambiental etc.Muitos estudos têm demonstrado o fator genético como uma das principais causas, pois tudo indica que uma desordem poligênica, onde os genes agem conjuntamente, pode favorecer o acúmulo de gordura.

No entanto, o estilo de vida sedentário, em decorrência da diminuição dos espaços públicos devido à urbanização, da maior utilização de veículos automotivos, das comodidades oferecidas pela modernidade e do aumento da violência, também contribui, e muito, para o aumento do acúmulo de gordura corporal (Oliveira et al. 2003). 

Além da falta de atividades físicas, estudiosos afirmam categoricamente que um dos maiores causadores da obesidade nas crianças e adolescentes é a quantidade de horas passadas em frente à televisão, computador e vídeo games (Dennisom, 2002; Oliveira et al. 2003; Hancox e Poulton, 2006). No caso da TV, além de permanecerem inativas, as crianças assistem propagandas de alimentos ricos em gordura saturada, sal e açúcar, e acabam sendo estimuladas ao seu consumo. Em consequência disso, reduzem a ingestão de carboidratos complexos e fibras, condição favorecedora para o estoque de gordura corporal (Oliveira et al. 2003, Lowry et al 2002).

Um estudo que confirma esses dados foi realizado recentemente e demonstrou que quanto maior o tempo em frente à televisão, maior a prevalência da obesidade. Ao avaliar três horas de exposição à televisão, os pesquisadores encontraram uma prevalência de 25%; já com cinco horas, esse valor aumentou quase 50%. Além disso, os dados coletados demonstraram alterações negativas no colesterol e, claro, falta de atividades físicas.
Sabe-se que o sedentarismo na vida do indivíduo, tanto adulto como criança, contribui para o ganho de peso. Sabe-se ainda que dos seis aos nove anos é a fase que determina o hábito de praticar exercícios físicos e os padrões alimentares, principalmente nas escolas. Neste tocante, a prática de exercícios deve ser estimulada desde cedo, pois existem inúmeras evidências de que esse hábito é um fator determinante na prevenção do sobrepeso.

É muito importante que os dirigentes educacionais promovam atividades que estimulem hábitos de vida saudáveis. As intervenções devem ser iniciadas o mais precocemente possível, pois é na infância e na adolescência que ocorrem mudanças importantes na personalidade do indivíduo, e é nessa fase que se devem consolidar atitudes positivas que trarão implicações diretas para a saúde na vida adulta (Enes e Slater, 2010).
Por último, vale ressaltar que a falta de informação e de políticas de saúde pública agravam ainda mais o problema, pois o que seria um aditivo para o controle e a prevenção, na realidade, praticamente não existe. Ou, pelo menos, não se ouve falar.

CONSEQUÊNCIAS

A obesidade infantil pode acarretar diversas consequências para a saúde, tais como: problemas ortopédicos, neurológicos, pulmonares, endócrinos, fatores de risco para doenças cardiovasculares, problemas sociais, econômicos e, principalmente, persistência da obesidade na vida adulta. Crianças obesas quando comparadas a não obesas apresentam o dobro de chance de se tornarem adultas com sobrepeso (Mello e Luft, 2004).
Atualmente, 60% das crianças obesas já apresentam um ou mais fatores de riscos cardiovasculares, principalmente quando a gordura se localiza na região abdominal, o que pode levar à hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

Outros achados verificados em crianças com sobrepeso foram: concentrações séricas de colesterol total, LDL, VLDL elevadas e baixas concentrações do HDL representando alta relação com a aterosclerose e problemas cardíacos. Não esquecendo que esses resultados têm grandes possibilidades de se apresentarem na vida adulta.

Segue abaixo algumas das possíveis complicações da obesidade quando iniciada na infância e adolescência (Mello e Luft, 2004).
• Cardiovasculares - Hipertensão arterial, hipertrofia do coração.
• Cirúrgicas - risco cirúrgico aumentado.
• Crescimento - Idade óssea avançada, menarca precoce.
• Articulares - Maior predisposição a artroses, osteoartrite, epifisiólise da cabeça femoral (desarranjo na articulação femoral), desvios posturais.
• Cutâneas - Maior predisposição a micoses, dermatites e piodermites (processos infecciosos da pele).
• Endócrino-metabólicas - Resistência à insulina e maior predisposição ao diabetes, hipertrigliceridemia e hipercolesterolemia.
• Gastrointestinais - Aumento da frequência de litíase biliar, esteatose hepática e esteatohepatite.
• Neoplásicas - Maior frequência de câncer de endométrio, mama, vesícula biliar, cólon/reto, próstata.
• Respiratórias - Tendência à hipóxia, devido ao aumento da demanda ventilatória, aumento do esforço respiratório, diminuição da reserva funcional, apneia do sono, asma.

Outros achados verificados em crianças com sobrepeso foram: concentrações séricas de colesterol total, LDL, VLDL elevadas e baixas concentrações do HDL representando alta relação com a aterosclerose e problemas cardíacos. Não esquecendo que esses resultados têm grandes possibilidades de se apresentarem na vida adulta.
Além das complicações citadas acima, a obesidade também está relacionada a uma maior taxa de mortalidade. E, quanto mais tempo o indivíduo se mantém obeso, maior é a chance dos problemas ocorrerem (Mello e Luft, 2004). 

CONCLUSÃO

A obesidade e o sobrepeso estão atingindo crianças e adolescentes do mundo inteiro, independentemente da classe social. Essa epidemia multifatorial pode causar diversas doenças cardiovasculares e alterações no quadro de saúde, tanto fisiológico quanto psicológico. Nesse sentido, a atividade física assume um papel importante na prevenção e proteção tanto para as crianças como para os adultos, podendo evitar doenças e complicações como as citadas anteriormente. Mas, para isso, é preciso uma conscientização dos pais, das autoridades e da população em geral sobre os benefícios do exercício físico. É importante perceber que um maior investimento na implementação de atividades físicas nas políticas públicas pode ser mais eficiente do que o aumento de remédios de graça e da mão-de-obra hospitalar, o que tem gerado um alto custo para o país e para a própria população. 

 

Referências


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4. HANCOX RJ, POULTON R. Watching television is associated with childhood obesity: but is it clinically important? Intern J of Obesity. v. 30 (1), p: 171-75. 2006.
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