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Terapias alternativas no esporte – Sauna e termoterapia

Felipe Nassau

02/05/2012

Histórico

Os banhos quentes e sauna são utilizados há centenas de anos com finalidades terapêuticas, sociais e de relaxamento. A sauna teve sua origem na Finlândia, onde, ainda hoje, é amplamente utilizada. Sobre os banhos de imersão em águas termais, há muitos relatos de que são utilizados desde a antiguidade clássica, na Roma e Grécia, porém, pode ter seu início antes disso.

Ambos podem contribuir para a melhora do bem estar, saúde e, possivelmente, contribuir para melhores resultados no treinamento físico, seja visando o desempenho atlético ou um corpo mais harmonioso.

Propriedades medicinais da sauna

Há relatos científicos de que o uso da sauna pode ser proveitoso em casos de paralisia cerebral (7), pois pode melhorar a perfusão sanguínea. Também há indícios de que pode amenizar o quadro de hipertensão arterial, por reduzir significativamente a resistência vascular periférica (RVP), ou seja, a tensão no vaso sanguíneo em resposta a forças exercidas por tecidos adjacentes. Além disso, é possível que a termoterapia associada ao exercício possa ser melhor no tratamento de condromalácea patelar que a combinação de exercício e tratamento medicamentoso (14).

Já em algumas patologias cardíacas, a sauna pode ser contra-indicada. A hipovolemia (redução do volume sanguíneo) promovida pela desidratação durante o banho de sauna faz com que a frequência de batimentos cardíacos (FC) se eleve para manter o suprimento da demanda de oxigênio e nutrientes. Ao fazer um banho frio entre sessões de sauna, a RVP se torna elevada, elevando também a pressão arterial, configurando assim, um esforço cardíaco aumentado (2,4,12).

Sauna e esporte

A sauna é capaz de elevar a temperatura corporal, o que é um estado favorável à prática de exercícios por melhorar a condução do impulso nervoso e sensibilizar as fibras musculares à ação do cálcio, fundamental para a contração muscular(15). Além de reduzir a viscosidade dos músculos e aumentar a produção do líquido sinovial, que “lubrifica” as articulações. Entretanto, a desidratação promovida pela sauna é capaz de reverter os benefícios do aumento da temperatura corporal. Em meio com menor concentração de água, as reações químicas intracelulares tendem a não ocorrer em velocidades adequadas e a condução do impulso nervoso pode ficar prejudicada. 

Esse fato é comprovado por alguns estudos que revelam redução no desempenho esportivo em exercícios de resistência (longa duração) assim como quedas expressivas na produção de força (3). Como curiosidade, essa redução na força pode chegar a 30%.

Os benefícios da termoterapia no esporte aparentemente se dão por outros meios. Em curto prazo, ao se expor ao calor, ocorre a vasodilatação que é favorável ao relaxamento muscular e melhora o fluxo sanguíneo. Em médio prazo, a desidratação momentânea é capaz de estimular o aumento do volume sanguíneo, principalmente do plasma, tornando o sangue menos viscoso. Isso pode ser muito proveitoso para atletas de longa duração por melhorar a função circulatória e para a saúde como um todo, pois reduz o esforço cardíaco. Acreditando que essa resposta fisiológica esteja relacionada com a queda aguda do volume plasmático durante a sessão de sauna, os trabalhos que demonstram maior redução no volume de sangue são com sessões de sauna intercaladas com banhos frios (4), sendo essa, talvez, uma forma de induzir melhores resultados, além de ser mais confortável e prazerosa. Porém, o uso de sauna logo após sessões de exercícios pode alterar o ciclo de funcionamento cardíaco (13). Mesmo não oferecendo um risco iminente à saúde, acredita-se que haja momentos melhores para a termoterapia, visto que a desidratação é desfavorável às reações anabólicas via nutrição, importantes ao final de sessões de treino.

Sauna , óxido nítrico e respostas circulatórias.

O aumento da produção de óxido nítrico (NO) que a indústria de suplementos alimentares vem buscando há alguns anos, sem sucesso, através da suplementação do aminoácido arginina parece ser possível por meio da sauna (9,10). Apesar de a arginina ser essencial à formação do óxido nítrico, sua concentração em organismos saudáveis excede milhares de vezes a sua necessidade para formar o tal gás, logo, nunca foi comprovada uma maior ação da óxido-nítrico-sintase através da suplementação de arginina. Sem elevar a expressão dessa enzima, não há como afirmar que tenha ocorrido aumento da produção de NO, portanto, até o presente momento, é uma mentira afirmar que a suplementação de arginina aumente o NO. Como curiosidade, há uma carência de estudos que demonstrem que sua suplementação melhore desempenho esportivo ou composição corporal em indivíduos bem nutridos, conforme pode ser visto nos artigos do GEASE.

Estudos recentes têm demonstrado que é possível aumentar a expressão dessa enzima e também do óxido nítrico no endotélio em modelos experimentais através do uso frequente de sauna. Os mesmos estudos demonstram também angiogênese (9,10) ou seja, síntese de novos vasos sanguíneos, o que pode ser extremamente importante tanto para transportar nutrientes e oxigênio aos músculos como para remover metabólitos produzidos durante o esforço, e assim, favorecer a sua sustentabilidade.

Sauna, hormônios e metabolismo de lipídios.

Além dos benefícios em todo o sistema circulatório, é possível que a sauna favoreça o emagrecimento. Mesmo que perder quilos de gordura na sauna seja um mito, há algumas evidências que podem ser favoráveis ao emagrecimento, podendo tal termoterapia compor alguma função favorável à redução do tecido adiposo. 

Em indivíduos jovens, há evidências (6) do aumento na produção do hormônio do crescimento (hGH). Tal hormônio é fundamental à reparação de tecidos danificados e estimula a lipólise (utilização do lipídio como fonte de energia). Sendo assim, existem meios naturais e fisiológicos de nós produzirmos nossos próprios hormônios, podendo a sauna contribuir para esse caso. Além disso, o sono, treinamento e alimentação são fundamentais para uma produção equilibrada de hGH.

Um estudo recente revelou que em médio prazo podem ocorrer melhoras no perfil lipídico sanguíneo através da sauna (1), aumentando o HDL-colesterol e reduzindo o LDL-colesterol. Esses dados nos mostram que além de reduzir os riscos de desenvolver doenças cardiovasculares, está ocorrendo uma melhor utilização dos lipídios.

Sauna e sistema imune

Por elevar a temperatura corporal, a sauna pode cumprir uma função semelhante à da febre, estimulando as células natural killer (imunes) na produção do interferon-gama, substância importante para estimular monócitos e macrófagos (outras células imunes) a reagir perante danos celulares e infecções (16. Isso, feito de modo regular, pode promover melhoras na resposta do sistema imune (11). Além da melhora ao desafio bacteriano, é possível acreditar que toda a coordenação do sistema imune possa ter uma resposta mais rápida e efetiva, o que pode ser fundamental na reparação do tecido muscular danificado pelo treino, evitando uma resposta inflamatória exacerbada e favorecendouma regeneração tecidual melhor.

Conclusões

A sauna pode influenciar o desempenho esportivo por vários meios. A redução no volume plasmático induzido por sauna induz o aumento compensatório do mesmo em médio prazo, e é favorável ao sistema circulatório por reduzir a viscosidade do sangue e melhorar sua função de transporte. Além disso, pode ser responsável pelo aumento do óxido nítrico endotelial e pela formação de novos vasos sanguíneos. A prática frequente pode melhorar também a produção de hGH e alterar favoravelmente a proporção dos lipídios sanguíneos. 

 

Referências


1. Pilch W, Szyguła Z, Klimek AT, Pałka T, Cisoń T, Pilch P, Torii M. Changes in the lipid profile of blood serum in women taking sauna baths of various duration. Int J Occup Med Environ Health. 2010;23(2):167-74.
2. Hannuksela ML, Ellahham S. Benefits and risks of sauna bathing. Am J Med. 2001 Feb 1;110(2):118-26.
3. Hedley AM, Climstein M, Hansen R. The effects of acute heat exposure on muscular strength, muscular endurance, and muscular power in the euhydrated athlete. J Strength Cond Res. 2002 Aug;16(3):353-8.
4. Kauppinen K. Sauna, shower, and ice water immersion. Physiological responses to brief exposures to heat, cool, and cold. Part I. Body fluid balance.Arctic Med Res. 1989 apr; 48(2):55-63.
5. Kauppinen K. Sauna, shower, and ice water immersion. Physiological responses to brief exposures to heat, cool, and cold. Part II. Circulation. Arctic Med Res. 1989 Apr;48(2):64-74.
6. Leppäluoto J, Tapanainen P, Knip M Heat exposure elevates plasma immunoreactive growth hormone-releasing hormone levels in man.J Clin Endocrinol Metab. 1987 Nov;65(5):1035-8.
7. Iiyama J, Matsushita K, Tanaka N, Kawahira K.Effects of single low-temperature sauna bathing in patients with severe motor and intellectual disabilities. Int J Biometeorol. 2008 Jul;52(6):431-7. Epub 2008 Jan 9.
8. Scoon GS, Hopkins WG, Mayhew S, Cotter JD. Effect of post-exercise sauna bathing on the endurance performance of competitive male runners. J Sci Med Sport. 2007 Aug;10(4):259-62. Epub 2006 Jul 31.
9. Akasaki Y, Miyata M, Eto H, Shirasawa T, Hamada N, Ikeda Y, Biro S, Otsuji Y, Tei C
Repeated thermal therapy up-regulates endothelial nitric oxide synthase and augments angiogenesis in a mouse model of hindlimb ischemia. Circ J. 2006 Apr;70(4):463-70.
10. Ikeda Y, Biro S, Kamogawa Y, Yoshifuku S, Eto H, Orihara K, Yu B, Kihara T, Miyata M, Hamasaki S, Otsuji Y, Minagoe S, Tei C. Circ J. Repeated sauna therapy increases arterial endothelial nitric oxide synthase expression and nitric oxide production in cardiomyopathic hamsters. 2005 Jun;69(6):722-9. 
11. Zellner M, Hergovics N, Roth E, Jilma B, Spittler A, Oehler R. Human monocyte stimulation by experimental whole body hyperthermia. Wien Klin Wochenschr. 2002 Feb 15;114(3):102-7.
12. Barr SI. Effects of dehydration on exercise performance. Can J Appl Physiol. 1999 Apr;24(2):164-72.
13. Paolone AM, Lanigan WT, Lewis RR, Goldstein MJ. Effects of a postexercise sauna bath on ECG pattern and other physiologic variables. Aviat Space Environ Med. 1980 Mar;51(3):224-9.
14. Qiu L, Zhang M, Zhang J, Gao LN, Chen DW, Liu J, She JY, Wang L, Yu JY, Huang LP, Bai Y. Chondromalacia patellae treated by warming needle and rehabilitation training. J Tradit Chin Med. 2009 Jun;29(2):90-4.
15. Maugham, R.; Gleeson, M.; Greenhaff, P.L.;Bioquímica do exercício e do treinamento.1ª edição, 2000.
16. Abbas, A. K.; Lichtman, A. H. Imunologia Básica: Funções e distúrbios do Sistema Imunológico. 2ª edição, 2007.