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Perspectivas atuais sobre CROSSFIT

Daniel Costa

07/08/2014

Introdução

Para os que ainda não conhecem o CROSSFIT, considerado hoje o “esporte do fitness”, se trata de um programa de condicionamento não tradicional que visa à melhora das capacidades físicas para as mais diversas tarefas. Segundo seu criador o treinador Greg Glassman, a metodologia fundamentada em cima de 3 (três) pilares (variação, intensidade e funcionalidade) é assumidamente empírica e baseada na sua própria vivência e interpretação de resultados no meio prático. Não tem a intenção de atuar de forma específica, sendo sua especialidade não especializar, através de uma grande variedade de métodos e rotinas de treinos diversificadas o praticante do CrossFit encontra uma nova rotina a cada dia de treino, essa é denominada WOD (Work of the Day). Segundo o treinador, a metodologia abrange desde o atleta de qualquer modalidade até grupos especiais, o objetivo é que o indivíduo esteja preparado para qualquer tarefa física, sendo ela desconhecida ou até mesmo improvável (The Crossfit Training Guide). 

Aspecto histórico

Glassman cresceu em um subúrbio de Los Angeles ao lado de seu pai, cientista espacial com quem Glassman relata ter tido confrontos com freqüência quando adolescente. Segundo ele era inevitável, pois o fato do pai ser um pesquisador fazia qualquer conversa informal tomar proporção de debate acadêmico. Glassman terminou indo para o lado dos esportes, se apaixonou pela ginástica (segundo ele, a responsável pela sua claudicação), levantamento olímpico e ciclismo. Em 1974 aos 18 anos Glassman conseguiu seu primeiro trabalho como treinador de ginástica em Pasadena, onde, após abandonar os estudos, começou a atuar como treinador em algumas academias. Foi constantemente despedido, devido as suas rotinas de treino “malucas”, que colocavam a integridade física dos alunos em risco, e sua insubordinação. O fato de ter acabado com todas suas possibilidades de trabalho com fitness na sua cidade não o impediu de em 1995 se mudar para Santa Cruz, CA e montar seu primeiro Box (lugar onde se pratica o Crossfit) onde formalizou sua marca. Em 2001 lança o crossfit.com onde disponibilizava suas rotinas de treino (WOD) com vídeos demonstrativos e fórum aberto para discussões. Em 2003 a franquia do crossfit começa a ser comercializada, em 2005 já existiam 18 afiliações, a partir daí o império de Glassman não para de crescer e em 2009 já eram mais de 1000 afiliações espalhadas pelo mundo (CROSSFIT Virtuosity; Inc.).

Aspecto mercadológico

O mercado fitness hoje tem relevância para diversos segmentos econômicos e sociais (Menezes, 2013). Segundo a revista FORBES neste meio o Crossfit vem ganhando a atenção dos investidores nos últimos anos, este fenômeno pode estar associado ao modelo de negócios da modalidade, baixo custo de investimento para montar o negócio. Por se tratar de um modelo não convencional, atrai grande parte dos consumidores que são avessos ao fitness convencional. Outro aspecto interessante que podemos atribuir ao seu crescimento acelerado está relacionado a uma excelente estratégia de marketing. O Crossfit criou um formato de competição firmando parceria com uma famosa marca esportiva e dando prêmios de até 250.000 dólares para os vencedores, o fato de transmitir esses eventos por canais de esportes como a ESPN e o constante bombardeio de vídeos motivacionais pelos canais de mídia contribuíram para popularizar sua metodologia (Forbes magazine, 2012). 

Segundo Partridge e colaboradores a atmosfera motivacional criada dentro de um Box do Crossfit é um importante fator a ser investigado e em um estudo pioneiro buscaram entender quais aspectos motivavam os crossfiters a alcançar seus objetivos. A pesquisa foi realizada através de 2 questionários e fez uma correlação entre gênero, tempo de prática e aspectos motivacionais. Apesar de o estudo apresentar limitação metodológica em relação ao tempo de prática, pois os locais onde foram aplicados os questionários tinham apenas dois anos de funcionamento, verificou-se diferença entre os gêneros. Homens se motivavam mais pela questão competitiva interpessoal (ser melhor que os outros praticantes), enquanto mulheres estavam mais preocupadas com a auto superação (melhorar em relação a seus próprios resultados), ainda segundo o estudo, a partir de 6 (seis) meses independente do gênero , o praticante teria uma tendência a se motivar pela questão competitiva interpessoal. O caráter competitivo pode ser um fator importante no quesito adesão à metodologia e ao mesmo tempo preocupante, pois à medida que o fator competitivo começa a ser predominante questões técnicas podem ser deixadas de lado a fim de melhorar marcas a qualquer custo.

Fundamentação e segurança

Para O`Hara e colaboradores até 2010 não é possível dar suporte científico à essa modalidade de treino não tradicional, e em sua revisão usaram estudo de Kraemer e colaboradores que tratava de treinamento concorrente, na tentativa de justificar seu uso. O Crossfit usa métodos interessantes e respaldados pela literatura científica: estímulos intensos, exercícios básicos, exercícios de potência. Mas, resta saber como implica o arranjo de todos esses métodos dentro da metodologia, no que remete à questão segurança e eficácia, neste sentido alguns estudos vem sendo conduzidos, a fim de proporcionar um maior esclarecimento sobre a modalidade.Com o aumento da popularidade de programas de condicionamento extremo como o Crosfit, parece crescer também o número de lesões associados às modalidades. Este fenômeno vem sendo observado tanto em militares como em civis, resultando em uma menor produtividade, custos com tratamento médico e longos períodos de reabilitação. Segundo Bergeron, e colaboradores 2011 os programas possuem certas limitações metodológicas e devem ser analisadas com cautela, pois certas características distintas parecem violar posicionamentos que foram elaborados para garantir um apropriado desenvolvimento da condição física de forma segura. Nesse sentido, o Crossfit vem sofrendo duras críticas em relação ao potencial lesivo associado à modalidade, como alto índice de lesões músculo-esquelético e até mesmo um caso reportado de Rabdomiólise (Hadeed e col., 2011). A falta de evidências científicas para sustentar esse posicionamento levou Hak e col em 2013 a publicarem um estudo descrevendo a natureza e prevalência de lesões associadas a prática da modalidade, o estudo foi realizado em forma de questionário e disponibilizado em fóruns on-line de Crossfit por um período de 3 meses,todos leitores inclusive os que não tinham lesão foram convidados a preencher. O questionário incluía dados demográficos como: sexo, idade, tabagismo e consumo de álcool, uso de drogas para a melhora no desempenho, tempo de prática, freqüência semanal e característica do treinamento. Lesão foi definida como qualquer lesão obtida durante os treinamentos que levou o praticante a parar de treinar, trabalhar ou competir por determinado tempo. Lesões que necessitaram de intervenção cirúrgica também foram registradas. O estudo concluiu que 73,5% da amostra reportou algum tipo de lesão que o impediu de treinar, trabalhar ou competir durante a prática de Crossfit, 7% necessitou de intervenção cirúrgica, nenhum caso de rabdomiólise foi registrado. Tomando o número de lesões reportadas pelo número de indivíduos que se lesionaram, temos uma média 1,92 lesões por pessoa. Nesta amostra o índice de lesão foi de 3,1 a cada 1000 horas de treino, a média do tempo de treino dos participantes foi de 18,6 meses com uma média de 5,3 horas semanais.

Segundo os autores, o índice de lesão foi similar a esportes como levantamento olímpico e ginástica e menor que esportes de contato como o Rugby. Em particular, um dos primeiros estudos reportando lesão em levantadores de elite (Calhoon e col., 1999), o índice foi de 3,3 a cada 1000 horas de treino, os dados foram obtidos durante um período de 6 (seis) anos e a maior parte das lesões não impediu que os atletas perdessem mais que um dia de treino. Apesar de o Crossfit enfatizar a importância de se executar uma boa técnica, principalmente em movimentos mais complexos como arrancos e arremessos (Crossfit Guide), realizar esse tipo de exercício em regime de exaustão pode ser contraproducente. Recentemente Hooper e col., 2014 verificaram em indivíduos com experiência em treinamento de força que foram submetidos à execução de um WOD com esta característica. O protocolo foi adaptado e era realizado uma seqüência de 3 exercícios básicos sem intervalo entre eles. A série se iniciava com 10 repetições e à medida que se repetia o exercício uma repetição era diminuída, até se chegar a uma repetição apenas, além disso os participantes foram orientados a fazer o exercício com a maior velocidade possível. Foi observado no estudo que realizar exercício complexo em regime de exaustão era contraproducente para a técnica e conseqüentemente para a segurança do praticante. Os autores ainda sugerem que para manter esse arranjo de treino e garantir a segurança, o exercício deveria ser realizado em máquinas, caso contrário um baixo número de repetições com um maior intervalo de descanso deve ser preferido para que o efeito cumulativo da fadiga não interfira no padrão motor do exercício e resulte em uma técnica pobre. 

Rabdomiólise

A rabdomiólise é uma condição em que há uma grande quantidade de danos ao músculo e abrange desde o aumento anormal dos níveis de creatina quinase pós-treino até complicações metabólicas severas, que podem levar a lesão renal aguda, síndrome compartimental aguda e em casos raros arritmia fatal (Szczepanik e col., 2014). Recentemente o crossfit vem criando uma imagem associada a casos de Rabdomiólise. De forma intrigante, um dos mascotes da modalidade se chama "tio Rhabdo", um palhaço com aparentes lesões musculares graves, plugado a uma máquina de hemodiálise, intestino dilatado e órgãos expostos, o que faz alusão ao estado clínico da rabdomiólise. Existe apenas um caso bem reportado de rabdomiólise e Crossfit na literatura científica, um oficial de 33 anos deu entrada no hospital após realizar um extenuante treino de Crossfit, o paciente vinha apresentando fadiga, falta de ar, fraqueza muscular e distúrbio do sono, a creatina quinase foi verificada e resultou em 26.000 IU/L, enquanto os valores normais ficam abaixo de 200 IU/L. Após 6 dias internado o paciente teve alta do hospital. Retornou aos treinos intensos somente após 4 meses de treino leve à moderado com orientação profissional (Hadeed e col., 2011). 

Eficiência 

Assim como na questão da segurança, são escassas as evidências científicas sobre a eficiência da modalidade. Um dos estudos mais comentados em relação à eficiência é o trabalho de Smith e col., 2013. A amostra foi composta de indivíduos saudáveis de ambos os sexos e níveis de condicionamento variados, após 10 semanas de treino que envolvia exercícios como agachamento, levantamento terra, arranco, arremesso e levantamentos acima da cabeça, todos realizados de forma explosiva. Após 10 semanas houve melhora do VO2 e emagrecimento de forma significativa. 

Alguns pontos vêm sendo questionados em relação à metodologia do trabalho, o primeiro ponto é que o treino não reproduz necessariamente um WOD do Crossfit e sim uma adaptação em forma de HIPT (High Intensity Power Training), outro ponto questionável é se o emagrecimento se deu em função do treinamento ou pelo fato dos indivíduos concomitantemente terem começado uma dieta (paleolítica), como no estudo não houve um grupo controle que não fez dieta, fica difícil afirmar que o emagrecimento se deu apenas em função do treinamento. Já em relação ao VO2, apesar da melhora significativa, também não houve um grupo para comparar os resultados, portanto não temos como afirmar se essa melhora no VO2 foi superior ou inferior aos protocolos de treino já existentes. Outro ponto intrigante do estudo foi que 16% da amostra teve que interromper o experimento por motivo de lesão, mesmo tendo supervisão adequada durante os treinamentos. 

Em estudo comparando potência aeróbia e potencia anaeróbia entre praticantes de Crossfit e praticantes de musculação tradicional, Sobrero e col., 2013 concluíram que não houve diferença significativa entre os grupos na potencia aeróbia (VO2), nem na potencia anaeróbia que foram avaliados pelo protocolo de Bruce e o teste de Wingate respectivamente. Em outro estudo do mesmo grupo, também não houve diferença nos ganhos de potência de membros inferiores e superiores (Schafer e col., 2013). Esses dados não corroboram com o estudo de Church e col., que encontraram resultados superiores apenas no teste de potência para homens praticantes de Crossfit, comparado a indivíduos que seguiam a recomendação do Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM). 

Conclusão

O Crossfit esta se tornando cada dia mais popular a nível mundial, provavelmente por características intrínsecas como, por exemplo, a questão competitiva e desafiadora associada a uma excelente estratégia de marketing. Segundo as evidências científicas ainda parece ser muito cedo para afirmar algo sobre a modalidade. No momento algumas limitações metodológicas devem ser percebidas e corrigidas, e estratégias para minimizar o índice de lesão devem ser adotadas. A respeito da eficiência, as evidências científicas parecem não dar suporte à hipótese que o Crossfit seja superior aos protocolos de treino tradicionais. 

 

Referências


Bergeron, M. F., Nindl, B. C., Deuster, P. A., Baumgartner, N., Kane, S. F., Kraemer, W. J., ... & O`Connor, F. G. (2011). Consortium for Health and Military Performance and American College of Sports Medicine consensus paper on extreme conditioning programs in military personnel. Current sports medicine reports, 10(6), 383-389.
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