Sulfato de vanádio

Por Paulo Gentil

1 de junho de 2003

O Sulfato de Vanádio é uma forma do mineral Vanádio, encontrado em pequenas quantidades na pimenta, ovos, óleos vegetais, aveia, cereais, frutos do mar, soja, milho, gelatina e outros alimentos. Este mineral foi descoberto em 1813 pelo espanhol Del Rio, quase 20 depois, em 1831, o químico suíço Nils Gabriel Selfstrom o re-descobriu, batizando-o de Vanádio em homenagem à Deusa germânica da beleza.

Apesar de não ter suas funções claramente definidas, sabe-se que o vanádio é necessário ao desenvolvimento e crescimento normais de algumas espécies (BODEN et al. 1996), tendo em vista que sua deficiência produz retardos no crescimento, deformidades ósseas e infertilidade em alguns animais. Em humanos, no entanto, ainda não se verificou a deficiência de Vanádio, desta forma, não podemos afirmar que ele seja essencial. A popularidade recente embase-se em seu suposto efeito similar a insulina, atuando na hipertrofia de diversos tecidos, mais notoriamente no acúmulo de carboidratos dentro dos músculos. A forma mais usada de Vanádio é o VOSO4 (Sulfato de Vanádio), por acreditar-se que esta seja a forma intracelular metabolicamente ativa do mineral.

Resultados controversos

A maior parte dos estudos com o Sulfato de Vanádio tem sido feita em casos de diabetes tipo 2, devido à suposição que ele restaure a sensibilidade normal à insulina (CUNNINGHAM, 1998, VERMA et al, 1998). Em 2001, um grupo de pesquisadores liderados por CUSI et al, (2001) avaliou os efeitos da suplementação de Sulfato de Vanádio em diabéticos tipo 2 durante 6 semanas. Os sujeitos receberam uma dose progressiva, chegando a 150 mg diárias na segunda semana e mantendo este nível até o final do estudo. A suplementação promoveu melhoras no metabolismo de glicose sem, no entanto, alterar os níveis de insulina, comprovando seu efeito na sensibilidade ao hormônio. Entretanto o estudo traz um dado interessante ao sugerir que o fígado, e não o músculo, seja o principal local de ação do suplemento.

A suplementação de Vanádio também foi estuda em modelos animais de diabetes insulino-dependentes, obtendo resultados positivos (CUNNINGHAM, 1998, VERMA et al, 1998), com diminuição das doses de insulina necessárias. Entretanto, AHARON et al (1998) criticam estas descobertas pelo fato delas usarem uma forma de Vanádio (vanadato) que não é ativa no interior da célula, ou seja, o experimento não refletia os efeitos do mineral por si só. Para corrigir o equívoco, os pesquisadores do Centro de Pesquisa de Diabetes da Faculdade de Medicina Albert Einstein (Nova Iorque) conduziram um estudo usando 100 mg de Sulfato de Vanádio, uma dose bem-tolerada e eficiente em diabéticos tipo 2. Porém os resultados não foram positivos, a intervenção não trouxe melhoras no metabolismo de glicose, levando os autores a concluir que os efeitos seriam limitados aos casos de resistência à insulina (AHARON et al, 1998).

Realmente o Sulfato de Vanádio parece ter sua aplicação limitada aos casos de diabetes tipo 2. JENTJENS & JEUKENDRUP (2002) administraram o mineral em indivíduos ativos saudáveis. No experimento foram realizados três testes de tolerância à glicose. O primeiro teste foi feito em estado basal (antes do experimento), o segundo ocorreu após a ingestão de 100 mg de Sulfato Vanádio. Nos seis dias seguintes os participantes mantiveram uma ingestão de 50 mg duas vezes ao dia, realizando o terceiro teste no sétimo dia. De acordo com os resultados, não houve diferença entre nenhum dos testes, mostrando que o Sulfato Vanádio não traz efeitos na sensibilidade a insulina em indivíduos saudáveis.

Especificamente para o público de academia foi possível encontrar apenas um estudo. O experimento foi conduzido por pesquisadores neozelandeses, no qual analisaram os efeitos do Sulfato de Vanádio na antropometria, composição corporal e performance de pessoas envolvidas com o treinamento de força. A performance foi quantificada através dos testes de 1 e 10 repetições máximas no supino e mesa extensora. Os resultados não mostraram nenhuma vantagem do uso de Sulfato de Vanádio, no entanto, ocorrerem algumas desistências devido aos efeitos colaterais (FAWCET et al, 1996). Estes e outros estudos, levaram KREIDER (1999) a concluir que o uso de Sulfato de Vanádio não configurava uma boa opção para o ganho de massa muscular.

Reações adversas

Não podemos esquecer que a insulina também atua no tecido adiposo, aumentando o acúmulo de gordura e este efeito também é inerente ao Sulfato de Vanádio (LI et al, 1997). Ou seja, o ganho de gordura acompanharia o suposto efeito anabólico do suplemento.

Não há estudos de longo prazo demonstrando sua segurança em humanos, portanto deve-se ter cautela com o uso. Dentre os efeitos colaterais relatados estão: hipoglicemia e distúrbios gastrintestinais (náuseas, diarréias, cólicas abdominais) (CUSI et al, 2001; VERMA et al, 1998). Quedas na hemoglobina e hematócrito também foram verificadas, isto provavelmente deve-se ao Vanádio competir com o Ferro pela entrada nas células vermelhas, atrapalhando a construção de hemoglobina (HALBERSTAM et al, 1996). Há estudos relacionando as concentrações de Vanáido à distúrbio maníaco-depressivos e tumores cancerígenos, porém estas relações precisam ser melhores estudadas (NAYLOR, 1984; CHAKRABORTY et al, 1995).

Considerações finais

O Vanádio existe em quantidades baixíssimas em nosso corpo (+/- 100 milésimos de um miligrama) e a ingestão deste mineral em uma dieta normal fica em tordo de 50 microgramas, desta forma a suplementação normalmente usada excede em milhares de vezes a ingestão habitual. Isto, aliado ao fato da essencialidade e segurança do Vanádio ainda não terem sido comprovados, faz VERMA et al (1998) afirmarem que “os efeitos biológicos do Vanádio são farmacológicos e o Vanádio deveria ser considerado uma droga ao invés de suplemento, no entanto, ele é correntemente vendido como tal nos Estados Unidos”

Resumindo, o Sulfato de Vanádio não é comprovadamente necessário aos seres humanos. Sua suplementação não demonstrou nenhum benefício aos praticantes de atividades físicas (a menos que possuam diabetes tipo 2), além de trazer potenciais efeitos colaterais. Não há estudos sobre sua segurança em longo prazo, ou seja, até onde se pode visualizar, o uso deste mineral não é recomendável para pessoas desejando obter melhoras em sua estética.

AHARON Y, MEVORACH M, SHAMOON H. Vanadyl sulfate does not enhance insulin action in patients with type 1 diabetes. Diabetes Care. 1998 Dec;21(12):2194-5. BODEN G, CHEN X, RUIZ J, VAN ROSSUM GD, TURCO S. Effects of Vanadyl Sulfate on Carbohydrate and Lipid Metabolism in Patients With Non-Insulin-Dependent Diabetes Mellitus.Metabolism , 45: 1130-1135, 1996

CHAKRABORTY A, GHOSH R, ROY K, GHOSH S, CHOWDHURY P, CHATTERJEE M. Vanadium: a modifier of drug metabolizing enzyme patterns and its critical role in cellular proliferation in transplantable murine lymphoma. Oncology 1995;52:310-4.

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CUSI K, CUKIER S, DEFRONZO RA, TORRES M, PUCHULU FM, REDONDO JC. Vanadyl sulfate improves hepatic and muscle insulin sensitivity in type 2 diabetes. J Clin Endocrinol Metab. 2001 Mar;86(3):1410-7. Endocrinology. 1997 Jun;138(6):2274-9.

FAWCETT JP, FARQUHAR SJ, WALKER RJ, THOU T, LOWE G, GOULDING A. The effect of oral vanadyl sulfate on body composition and performance in weight-training athletes. Int J Sport Nutr. 1996 Dec;6(4):382-90.

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NAYLOR GJ. Vanadium and manic depressive psychosis. Nutr Health 1984;3:79-85.

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